domingo, 16 de dezembro de 2012

∞/∞/2012



     Encontrei-o fazendo acrobacias por toda a cidade, saltando entre os carros e pegando atalhos que seu próprio corpo elástico tornava-lhe possíveis, entre as montanhas e seus picos de concreto. Ele era rápido em seus movimentos; no entanto, depois de deixar todos surpresos ou frustrados por não conseguirem alcançá-lo, por um momento ­– antes de voltar a fazer suas acrobacias – ele parava. E no espelho dos seus olhos, eu vi que agora ele esperava os aplausos. “Porque a vida”, ele dizia, “é um grande circo”.
     No entanto, logo percebi que ele não podia dizer o segredo de suas acrobacias. Quando interrogado, ele se desviava, flexionava-se, sufixava-se ou prefixava-se como corpo-verbo que não podia ser revelado. E eu buscava a revelação. Assim, quando minha rosa branca já agonizava, sem redoma e em suas derradeiras pétalas, gritei para que ele segurasse em minhas mãos para levá-lo com ele. Mas num último salto, que eu sabia que inevitavelmente viria quando percebi que me colocava como trampolim, ele simplesmente se foi, sem sufixo, sem prefixo: radical.
     Não, eu não era um acrobata. Cheguei em casa e sentei-me na cama. Acendi um, dois, três, quatro, todo um maço de cigarros querendo então sufocá-la para que ela morresse. Já que a morte é inevitável, eu pensei com ódio, eu posso matá-la agora. E então eu mergulhei minhas mãos em minhas entranhas, a princípio conseguindo fisgar apenas pedaços, pétalas aqui e ali, até que por fim, imerso até os ombros, senti entre os dedos o caule e com toda a minha força a arranquei de uma só vez, revolvendo toda a terra. E sangrando e vazio, deitei-me para dormir.
     No dia seguinte, abri os olhos devagar, sem me mover. Esperei, ouvindo a minha própria respiração hesitante. Era inacreditável que ela não mais estivesse ali. Então, com muito cuidado resolvi friccionar devagar as extremidades do meu corpo... As pétalas farfalharam num suspiro. E quando respirei fundo, a senti dentro do meu peito, bem fundo, no fundo, como se respirasse também. Levantei-me com violência, mas tive que me segurar na parede, pois meu caule se estirou como se a qualquer momento fosse arrebentar.
     Por dias, semanas, meses, eu tirava alguns momentos do dia para enfiar minha mão no fundo e arrancar suas pétalas até chegar ao seu caule. E a cada pétala, meu corpo vibrava até por fim ejacular gêiser de sangue, com o caule entre os dentes.
     Mas na manhã seguinte ela estava em flor mais uma vez.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Aí vem chuva de novo


Escrever é viver, simplesmente,
sob a condição de se acreditar não ter vivido.
(César Aira)

Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.
(Clarice Lispector)


     Sexta-feira. O céu estava pesado de nuvens, e toda a multidão andava apressada de volta para a casa para que pudesse desaguar todo o peso da semana. Um rosto sorrindo ao telefone de repente revela toda aquela alegria patética das pessoas ao se verem livres por dois míseros dias. E ali, entre todas elas, ele andava rápido porque a chuva logo iria cair, e procurava desesperado um bar para que ele, também ele, pudesse desaguar. Passou sob um toldo, olhou pela vidraça como se visse o seu próprio reflexo – era bonito – e não me viu.  
     Estou aqui sentado na mesa com um copo – o quinto, o sexto? –, desaguando também. Solitário como todas as pessoas na cidade. Todas esperando a brecha do final de semana para viverem de alguma forma, sentirem, cada uma a seu modo, o que é viver livremente. Importa, então, o que elas vão fazer, contanto que sintam que estão vivendo? Eu, também, por trás do vidro, sinto que estou vivendo. Como alguém fechado num quarto escuro e sem janelas que de repente sente o vento entrar por baixo da porta e encosta a boca pra sugar – sugar, sugar, sugar – o ar que continha toda a vida e que era o suficiente para que muitas outras irrompessem dentro dele – em mim – e eu pudesse, então, viver. (Já me disseram que sou melodramático. Mas às vezes é preciso saber apreciar a verdade do clichê. Não?)
     Mas estou aqui também em busca de material. E agora percebo como sou invasivo na vida das pessoas, um parasita que precisa dos outros para poder existir. Pois o fato é que anda cada vez mais frequente, para onde quer que eu vá, de repente pensar num novo conto, e muitas vezes, quando alguém conta alguma coisa pra mim ou de repente eu vejo – pois tinha dia ou outro uma epifania, coitado – algo meio amorfo na ameaça de se solidificar, como uma substância ainda sem forma, era ele quem corria até ela com sua baqueta para que de repente algo como a Sonata Patética de um Beethoven irrompesse – tomasse forma – bastasse apenas tocá-la. Pois era um escritor – coitado! – um es-cri-tor. Me respeita! Respeita meu espaço! Este caderninho. 

     De repente, a porta do bar se abriu. Era ele. Vi-o se debruçar sobre o balcão, vi seu pau sob a calça roçar no banquinho junto ao balcão, a bunda levemente inclinada para trás, a mão no queixo enquanto olhava o cardápio para ver o que pediria, o indicador na boca. O que pediria? Uma cerveja, tinha cara de quem pediria uma cerveja... E pediu. Abriu com um só movimento – tinha mãos fortes – e jogou a tampinha no lixinho ao lado. Olha pra mim. Olha pra mim. Eu estou aqui escrevendo e mexo displicente a caneta como se pensasse, olhando para a rua, mas com o canto dos meus olhos acompanho os seus movimentos e torço, torço para que me veja: um escritor sentado sozinho – escrevendo, é claro – num boteco numa sexta-feira. 
      Será que me pareço com um escritor, pensei sem querer. Vestia o terno com que ia trabalhar. Não, não pareço... Mas hoje, afinal, o que é se parecer com um escritor? O que é se parecer com qualquer coisa? E quanto a escrever, anda cada vez mais difícil encontrar uma folha em branco – ou seria uma caneta que funciona?
     Posso me sentar com você?, ele disse. O quê?, eu perguntei. Ele me via, agora. E se sentou. É que tá chovendo lá fora. O que tá escrevendo aí? Nada, respondi. Nada não pode ser, deixa eu ver. Não, não. Só um pouco. 
     Ele pegou o caderno, mas não viu o que eu escrevia. Fechou-o, analisou a capa, e abriu a primeira página. Eu ia gritar Não!, mas acabei disfarçando a minha ansiedade olhando pra fora. A rua, os ônibus, as pessoas patéticas correndo na chuva, pensei, mas quando vi meu reflexo na vidraça me assustei porque estava sorrindo também. 
     Here comes the rain again, o rádio tocou.
     Mas ele de repente começou a rir alto na mesa. O que foi?, eu perguntei. Você é romântico?, sua boca se contraiu numa expressão que não combinava com ele. Por quê?, eu perguntei. Ah, eu gosto. Hum. O que você leu aí? Isso, ele falou em voz alta e começou:
     
     Se eu decidir continuar seguindo estas linhas, aqui, vou adivinhar nosso destino? Borrão aguado sobre as letras, palavras espumantes sobre o papel – mas tão rápidas elas diluem depois da queda! E a caneta, exausta, vai-se embora pelos vãos dos meus dedos. Porque por mais que eu esprema, não adianta: desta tinta eu não quero o seu amor.

     Foi pra alguém em especial?, porque era óbvio que ele ia perguntar isso. Não. Quer dizer, foi. Não sei. Ah. Eu gostei, achei bonito, mas. Mas o quê? Falta alguma coisa. Você já pensou em publicar? Como você sabe que eu não publiquei? Eu sei, ele disse. Você quer ser lido, né. O mais difícil pra um escritor é assumir que quer ser lido, eu disse solene, e tomei um gole do copo. Olhei pela vidraça.
     Here comes the rain again, cantarolei sem querer. Ficou na cabeça. Hein? É um clássico dos 80, expliquei. Saiu alguma coisa hoje aí?, e indicou com a cabeça o caderninho. Um pouco, respondi. Já publicou pra revista, jornal? E o que você faz da vida? Você tá de terno e gravata agora, trabalha onde? Ah, não, não fala, vai estragar – quero manter um mistério. Para de projetar, você nem me conhece, disse, sentindo um mal-estar. Bebi demais, falei. Olha, a chuva pode piorar e a gente vai ficar preso aqui. Mas a gente vai se encharcar. Já tô encharcado, e chamei o garçom. Não queria que acabasse. Mas não precisa acabar agora, me ouço de repente dizendo antes de ouvir, ao olhar para a vidraça que com a escuridão lá de fora agora refletia todo o bar: Já acabou.
     À porta, de repente esbarrei em alguém que entrava. 
     “Desculpa!”
     “Ai... Tudo bem... Ah, aí no chão, moço, é seu, né? Acho que caiu.”
     Era ele. Peguei rápido o caderninho aos seus pés.
     “Nossa, obrigado. Não tinha visto.”
     E ele entrou. Mas eu já estava encharcado. E me juntei à multidão, caminhando apressado para voltar para casa. Ao passar pela lata de lixo mais próxima, deslizei discretamente o caderninho das mãos. Olhei para o céu. Aí vem chuva de novo.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Óculos novos


     Enquanto caminhava teve a sensação de que nunca enxergara com tanta clareza. Não eram apenas os óculos novos (antes, com o antigo, tinha tido uma fase de cegueira, e não só porque estava velho e quebrado). Não, ele olhava agora para os rostos das pessoas na Avenida Paulista como se não houvesse problema em olhar. Em estar ali, apenas. Estar de fato ali.
     E de repente viu um rosto conhecido  era fulano, ex do ex do seu amigo, não era?  e continuou pensando que talvez contaria a ele hoje que o viu. Mas alguns passos depois, viu-o mais uma vez e, antes que sucumbisse pensando que o poder desses acasos poderia enlouquecer alguém  tô ficando louco, louco, louco – mas agora era ele, tinha certeza –, percebeu que na verdade a clareza do seu olhar naquele momento era tanta que todos os rostos  o rapaz, a moça, o velho  lhe eram familiares. Não, não era, também, porque passava por ali há alguns anos já, no mesmo horário, e talvez já tivesse visto todos, todos, todos os rostos antes. Não: era porque o outro sempre existiu, e só agora ele parecia vê-lo pela primeira vez. 
     Tirou os óculos e esfregou as lentes no pano de sua camisa para que pudesse ver melhor. 

sábado, 17 de novembro de 2012

Things We Didn't See Coming


Para Nathália.


     “Porque forma”, ela pensou enquanto sugava do beck na boca, tentando se lembrar do que queria dizer no bar.
     “O quê?”, o estranho – tinha esquecido o nome dele – tinha perguntando então, mas agora suas mãos tiravam devagar o seu sutiã diante do espelho do seu quarto. E disse, alisando com o dedo todo o seu corpo com suas estrias e elevações e inesperados declives: “Você é linda, sabia?”.
     Mas ela apagou o beck rápido, empurrou-o sobre a cama e sentou-se em cima dele – porque forma, ela pensou – fazendo força sobre o seu corpo enquanto o volume crescia sob a cueca até ela–

(Ah, sim:
“Não tenho camisinha”, ele disse, sorrindo.
“Tenho pílula do dia seguinte”, ela ofegou.)

–segurá-lo entre os dedos e encaixá-lo todo dentro de si. Ele envolvia os seios na palma das mãos – porque forma, ela pensou – enquanto ela subia-descia-batia-sobe-desce-bate-sobe-desce-bate-de-re-pen-te: ___________.
     Porque forma, ela pensou, se desenroscando dos braços dele e indo até o banheiro sem fazer barulho, para não acordá-lo. Sentou-se na privada e pegou o livro que andava lendo – Things We Didn’t See Coming – enquanto o xixi escorria. Ao levantar-se, um papel que estava entre as páginas caiu no chão. Pegou, leu-o e riu: a porra dele rodava descarga abaixo junto com o xixi. Porque forma, ela pensou, é conteúdo sócio-histórico decantado.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

     Lembra-se quando éramos crianças e jogávamos bola no quintal de casa e a bola caía no quintal do vizinho? Era o fim se ela caísse, pois sabíamos que ele não devolveria. E costumávamos ficar sentados perto do muro do quintal até a noite chegar, imaginando a bola ainda lá, muito distante sob o sol que se punha no final da tarde, entre a grama mal cortada e sob a sombra de uma árvore, abandonada. Nunca mais a veríamos. E ainda que pedíssemos a mamãe pra pedir a ele que nos devolvesse, ela não ia, não ia. Sabia que ele não devolveria. Mas o maior problema hoje, eu vejo, era que toda vez que a bola lá caía ela nos surpreendia no dia seguinte com uma nova... Nos acostumamos com isso. E agora, que crescemos, a cada bola que jogamos no quintal do vizinho, sem querer ou não, não importa, esperamos no dia seguinte uma nova – mas ela não vem, não vem.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pra variar: três poeminhas

Conta-gotas

"Três gotas antes de dormir."
Só.
     .
     . três?
              :
              :
              :
              :
              :
              :


Procrastinação

Queixo
                  na mão,
têmpora
                  no indica-dor.

Todo o peso do mundo
oscilando
                    sobre
             as
                    pálpebras.

"Bora tomar uma breja?"

E chuto-o para o

                         

                                    céu.


Ideologia

Ele _____ o nariz.
     (torceu?)
     (revirou?)
     (revolveu...?)

He twitched his nose like a rabbit's.

"Que cheiro é esse?", e então me perguntou.

A maçã mordida

E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer,
e agradável aos olhos,
e a árvore desejável para dar entendimento;
tomou do seu fruto, e comeu,
e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. 
– Gênesis 3,6.

  
     Ele tinha vindo de longe. Enquanto subia a colina, embora de vez em quando sentisse alguns espinhos na sola dos pés e pisasse sem querer num formigueiro – e por ter destruído o lar das metódicas formigas, vermelhas de raiva elas cobririam todo o seu corpo se ele não corresse o máximo que podia, agitando os seus pés para livrar-se de suas picadas rancorosas –, ele erguia os olhos e via a silhueta cada vez mais próxima do garoto recortada pelo sol nascente.
     Esse garoto andava de um lado para o outro, impaciente, no alto da colina, sob uma macieira. Quando o viu se aproximar, parou. Não sorriu, não acenou de volta. Ficou parado, vendo-o enquanto ele se aproximava com os olhos fechados, sorrindo, porque já podia sentir o cheiro das maçãs fresquinhas que comeriam juntos. 
     Mas o garoto imediatamente deu um passo à frente, impedindo-o de se aproximar. E ele então parou. Seu corpo tornou-se pequeno diante da sombra que de repente se ergueu ameaçadora dele. Tentou segurar em suas mãos, mas foi empurrado colina abaixo, e rolou silencioso...  
     Não tem problema, não tem problema, ele pensou lá de baixo. Uma gotinha acabou escapando do seu olho, descendo pela bochecha, mas ele esticou a língua e engoliu-a rápido antes que caísse. E, sorrindo, subiu tudo de novo.
     Mas, quando lá chegou, outra sombra se ergueu sobre ele. Era uma garota. Tinha estado ali o tempo todo, ela disse, entre os galhos da árvore, colhendo uma maçã que agora segurava entre as mãos. Só a gente pode comer, disse o garoto, você não. E a beijou, mantendo um olho aberto para ter certeza de que ele estava vendo.
     Ah, ele estava vendo, sim. Pois embora dessa vez não tivesse saído do lugar, via-os cada vez maiores enquanto rolava colina abaixo de novo, até cair de joelhos exausto. Então, de repente, lá de cima, eles arremessaram a maçã, que bateu dura contra o seu rosto. E ele ouviu seus passos leves se distanciando pelo outro lado da colina, ele rindo muito, ela ainda mastigando o último pedaço da maçã, que jazia a poucos passos dele toda mordida, sobre a grama verde. Apenas o caroço. 
     Engatinhou até ele, como um moribundo no deserto. Segurou-o entre os dentes, enquanto rolava até a árvore. Mordiscou as últimas lascas. A casquinha de cima e a de baixo. Sugou o caroço. Sugava com força. Ficou sugando. Sugando, enquanto o dia passava... 
     Os raios do sol romperiam entre as folhas e os galhos e queimariam os seus olhos, mas ele não se moveria. Sem piscar continuaria sugando o caroço até que ele secasse em sua boca. E com o tempo a árvore também secaria, pois nunca mais daria nenhum fruto, e também a grama cresceria a tal ponto que esconderia todo o seu corpo até que, quando a noite chegasse, alguém desprevenido – talvez buscando solidão – subisse a colina, já há muito tempo não pisada por pés humanos. E ao ouvir os ossos se estilhaçando sob seus pés, perceberia que tinha pisado em seu crânio. Mas então veria assustado que os dentes ainda estavam inteiros, cravados em algo que jamais saberia o que era – porque, na verdade, nunca foi.
     De repente, ele sentiu na palma da mão uma forma redonda. Abriu os olhos. Um garoto olhava-o de cima.  
     Joga fora isso, tem bastante lá, ele disse, apontando para muitas outras maçãs, grandes e muito vermelhas, penduradas bem diante de seus olhos.
     Levantou-se. Escalou a árvore até um galho, puxou uma maçã e desceu até o lado do garoto, que imediatamente deu um passo para trás. Já não sorria, nem acenava. Mas também ele não sorria, também ele nem acenava. E o sol estava tão alto que nenhum dos dois fazia sombra. Assim, segurando numa das mãos a maçã que tinha recebido, ele – o nosso garoto – ofereceu a que tinha colhido para o outro. E ficaram comendo juntos no alto da colina até o pôr do sol.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

abraço

o vento entrando sob a sua camisa larga dançando em torno dos contornos da sua pele, braços pêlos axilas cintura. gostaria de por um momento ser aquele vento. mas também ele, ao senti-lo, não estaria tendo a sensação de amplitude que o meu abraço estreitaria? ou seria possível que, num abraço meu, estivéssemos tão conectados como se fôssemos um, a ponto de não haver estreitamento nenhum mas uma amplificação ainda maior, como se tivéssemos construído um espaço vasto que somente nós dois habitaríamos? mas não consigo deixar de imaginar que esse mesmo espaço possa se mostrar amplo demais, amplo demais. e num só abraço, podemos nos sentir como dois estranhos na cidade acenando, além de prédios, becos e avenidas, um para o outro numa distância incomensurável e fatal.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Dois passarinhos


Ao som de Little Joy. 
E com agradecimentos a Bruna e Alan.


     Tinha caído uma tempestade tão forte que, entre as folhas de um galho de uma árvore qualquer na cidade, os passarinhos sacudiam as suas penas para se secarem dentro de seu ninho. Uma cachoeira de repente deslizou de alguma folha acima deles e se espatifou sobre suas cabeças, e tiveram que eriçar suas penas mais uma vez como que sincronizados. E o ninho que tinham construído com tanto cuidado para chocarem seus ovos agora tinha buracos por todos os lados. Felizmente, no entanto, os ovos estavam intactos. Protegeram-nos com seus corpos trêmulos durante toda a tempestade.
     De repente, um vento frio entrou pelos buracos do ninho quando uma janela, em cujo vidro o galho da árvore roçava, se abriu. Um jovem olhou para o céu ainda coberto de nuvens depois da tempestade. Voltou-se para trás de si, onde outro tinha uma bandeja sobre o colo, sentado numa cama de casal. Quase como um convalescente, ele lentamente levou a xícara aos lábios. E o primeiro, com um suspiro, sentou-se ao seu lado e pegou um pedaço de bolo da bandeja com as mãos, sem mordê-lo.
     Estavam cansados. Tinham dormido mal na noite passada, depois de ficarem horas deitados em silêncio, fitando o teto que se tornava cada vez mais nítido na escuridão. E as letras em vermelho e muito grandes flutuavam diante deles: 

FORA VIADOS – APARTAMENTO 101

     Nem desceram do elevador. Indignados, apertaram o botão para subir ao andar do síndico para que ele tomasse imediatamente alguma providência para descobrir quem foi. Mas com a mão na porta, sem abri-la totalmente, ele levantou os ombros e sorriu como se dissesse debochado: “Eu avisei”. Mas na verdade ele disse que não tinha nada que pudesse fazer. O elevador não tinha câmeras. Mas isso não se repetiria. Ele sentia muito. Boa noite.
     Quando entraram em casa, a sós, conversaram e tomaram a decisão de denunciar o ato. Mas conforme a noite avançava, cada um em sua cabeça, decidiram em silêncio esquecer aquilo. É que não queriam arrumar encrenca com os vizinhos, eram novos no prédio. Na verdade, pensaram, era exatamente aquilo que eles desejavam que fizessem. Não, não dariam esse gosto a eles. 
     Tinham se mudado há menos de um mês. Estavam juntos há cinco anos já, se conheciam muito bem, e ficaram empolgados com a ideia de juntos dividirem um lar. Não, é claro, que acreditassem no amor ideal, em almas gêmeas. De fato, assim que se apaixonaram logo perceberam que o amor como tinha sido apresentado para eles não daria certo. Ambos eram independentes demais, livres demais para dependerem um do outro – e, ainda assim, amavam-se e precisavam um do outro em suas vidas. 
     Bruno era um artista plástico. Forrava as paredes da casa com seus quadros, estes pintados especialmente para ela com o que tinha de mais seu, embora soubesse que jamais conseguiria dar tudo o que desejava, assim como recebia por seus quadros menos do que achava que merecia. Rodrigo, por sua vez, era um engenheiro: tinha a mente prática, cuidava para que toda a base do lar não fosse construída num terreno traiçoeiro, e muitas vezes era ele quem achava alguma saliência ou uma parte mais frágil no terreno e, acenando para Bruno, batia nela com o pé e dizia: “Aqui, viu?”. Talvez porque Rodrigo fosse um pouco mais velho, Bruno pensava, ou quem sabe menos emotivo, embora achasse que ele sempre acertava nas molduras que fazia para os seus quadros.
     E ali estavam os dois agora. Tinham decidido não sair de casa naquele dia. Rodrigo decidiu preparar o café da manhã para comerem juntos na cama – há tanto tempo não fazia isso! –, abrindo a janela para acordar Bruno, que costumava dormir demais. E o dia parecia mesmo ideal para ficar em casa, sentiram, o cheiro de umidade e folhas molhadas entrando com o vento pela janela do quarto, enquanto afogavam o biscoito no café com leite antes de levá-lo um até a boca do outro. Pois acordaram amorosos naquele dia, desejosos de exercer toda a liberdade que podiam dentro espaço que tinham construído para si mesmos.
     “A gente devia cozinhar hoje”, Rodrigo disse.
     “Hum... Acho uma boa”, respondeu Bruno, com a boca cheia.
     “A gente tem o que em casa?”
     “Nada, eu acho... Tem que sair pra comprar.”
     Os dois não se olharam até colocarem no rosto um sorriso que acabou saindo como um par de asas que se esforçava em vão para levantar voo.
     “Ah, tem um lugar que eu ouvi dizer que é ótimo. A gente podia pedir.”
     “É, acho que eu também tô com preguiça de cozinhar.”
     Continuaram comendo em silêncio, até que Rodrigo de repente se lembrou que tinham marcado de ir ao cinema com o pessoal hoje. Bruno sem querer soltou um suspiro, olhando pela janela, e apenas disse: “O tempo hoje tá feio”.
     “É, né? Melhor a gente ficar em casa. Vamos marcar pra outro dia.”
     Sentindo então uma inquietação, uma vontade de sacudir não sabia o quê, depois que tomou o último gole da sua xícara Rodrigo disse:
     “Você tá quieto.”
     “Tô pensando”, Bruno respondeu, observando na parede diante dele o quadro que tinha pintado há pouco tempo atrás.
     “Hum”, Rodrigo fez apenas, temendo o que poderia ser. Mas sem que perguntasse, Bruno respondeu:
     “Eu gostei bastante dessa sua moldura.”
     Rodrigo esperou para ver aonde ele ia chegar. Não agora, pensou. Mas o seu olhar fez Bruno pensar por que ele às vezes o olhava como se de repente ele estivesse prestes a: “Lembra aquela vez que eu disse que só pintar não adiantava? Parece que eu nunca consigo expressar tudo. Foi isso que eu tentei, nesse quadro. E daí também pensei em você enquanto eu fazia, não só como observador. Queria que você participasse, entendeu? Mas acho que eu não consegui”.
     Rodrigo observou a moldura que tinha feito. Lembrou-se que queria que ela se diluísse na pintura, não se impusesse. E de repente se surpreendeu com o tom de agressividade em sua voz quando sem querer respondeu: “Mas você por acaso me perguntou o que eu achei?”.
     “Não...”, Bruno respondeu surpreso. É verdade, ele não tinha perguntado. “Fiquei esperando você dizer.”
     Depois disso, inevitavelmente os dois ficaram em silêncio mais uma vez, observando o quadro na parede... Mas Rodrigo não sabia o que era aquilo que Bruno tinha pintado. De fato, quantas vezes, ao se deparar com alguma pintura sua, não conseguia entender o que ele quis dizer? E quando ele finalizava uma nova, Rodrigo se aproximava e o via sentado diante dela, até receber um olhar furtivo e trêmulo dele, cujo peso ainda podia sentir como se um ponto de interrogação de repente tivesse sido enganchado em seu pescoço. E mesmo se ele tivesse dito: “Gostei”, Bruno ouvia apenas um murmúrio qualquer abafado pela porta que ele tinha acabado de fechar atrás de si, sendo atacado de repente por cadeiras, mesas, sofás e tapetes imóveis sobre o piso frio do chão da sala. “Precisamos mudar a disposição dos móveis amanhã”, ele então suspirava. Pois nem mesmo ele sabia exatamente o que queria dizer com o que pintava.
     Sem que percebessem, a mão de um apalpava sobre o lençol da cama em busca da mão do outro, e quando se encontraram tocaram-se de leve na ponta dos dedos. Olharam-se surpresos.
     “Que filme é mesmo?”, Bruno perguntou.
     “Não lembro, mas”, Rodrigo vacilou.
     “Você quer ir?”
     “Você quer?”
     “Vamos?”
     “Vamos.” 
     E os dois beijaram-se gentilmente por um tempo, até Rodrigo se levantar para fechar as cortinas da janela, enquanto Bruno depositava a bandeja do café da manhã ao lado da cama. Uma rajada de vento fez a cortina inflar e, num último relance, dois pés se entrelaçaram antes que ela voltasse a repousar num suspiro de alívio. 
     No galho à janela, os passarinhos cantavam pelos raios de sol que penetravam entre as folhas, reconstruindo seu ninho para esperar os ovos finalmente chocarem, em uma árvore qualquer na cidade.  

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dentes brancos


Com agradecimentos a César e Maurício.


     Isso daqui não é um conto. Quer dizer, é, mas não é pra ser. Porque ele é real. Mas é difícil nesse espaço em que o coloco agora mostrá-lo de modo que não sejam meus dedos sobre a tecla que lhe deem vida, mas que a vida irradie dele mesmo – sem meus holofotes em cima, nem através. Eu aqui não quero mais estar, é isso o que quero deixar claro antes de me calar.

*

      Num dia quente e abafado, daqueles dias secos na cidade em que o nariz escorre e a garganta resseca – sem que o líquido viscoso do nariz entre pela boca para lubrificar a garganta – ele endurece no meio do caminho –, a única maneira seria deixar o pau entrar goela abaixo e a porra, ainda quente, lubrificar. Porque na verdade não chovia há dias. E porque na verdade isso era tudo o que tipos como ele recebiam dia a dia nas ruas – pau na boca como se fosse o cu, empurrando a merda para baixo a tal ponto que, sufocados, já não pudessem mais falar. E a merda tinha que descer em silêncio – em algum canto escuro da cidade, em suas entranhas mais podres –, a não ser por convulsões do cu que vibrava ruidoso.
     Mas com ele era diferente. Todos os outros faziam como se aquilo lhes fosse merecido, como se a sociedade os tivesse excluído porque não cumpriram a expectativa, não fizeram o que tinha e podia ser feito. Mas não ele. De lugar nenhum, eles mudaram-se para um apartamento em dezenas, pouco a pouco chegando, e sem se saber de onde nem como ele de repente já estava ali. Todos se surpreenderam quando viram, ao lado de seus trapos imundos, um copinho de plástico e uma escova de dente muito limpos, como um altar se elevando puro em meio a tanta sujeira. E ele não levava pau na boca porque, quando a cabeça ameaçava uma investida babando como um cão raivoso, no meio de seu rosto sujo abria-se um sorriso de canto a canto mostrando dentes inesperadamente brancos.
     Não demorou muito tempo para a polícia bater no prédio para retirá-los todos de lá, dos três andares que ocupavam. Mas quando ele surgiu à porta, emporcalhado, a barba como uma teia de aranha em que tudo grudava e um umbigo sujo como um buraco negro na barriga saltada para fora do trapo rasgado, seus dentes brancos brilharam. Os policiais o olharam atordoados, ficaram de pau mole, enfiaram-no de volta às calças e foram embora impotentes com a sensação de terem sido agredidos.
     Ele logo arrumou um canto na calçada para ficar sentado todos os dias, com uma caixa de papelão ao seu lado para que lhe dessem esmolas. Uma senhora muito bem vestida e elegante passou, olhou-o e, sentindo pena, tirou de sua bolsinha uma moeda. Ele mostrou seus dentes brancos. Quando os viu, ela se sentiu muito escandalizada e de sua bolsa retirou mais uma moeda. E os dentes brancos brilharam mais uma vez. E ela então lhe deu mais uma. E os dentes brancos.
     As mãos da senhora tremiam, horrorizada com aqueles dentes brancos que a cada moeda que ela dava insistiam no rosto encardido. E todo mundo que passou ali, quando o viu, também fez o mesmo. Mas com um sorriso os dentes brancos concordavam apenas. As pessoas despejaram celulares, carteiras inteiras, bolsas com tudo dentro, apavoradas com os dentes que tinham resolvido nunca mais sair dali. Algumas em prantos, outras tremendo e aos berros, foram embora para a casa desesperadas.
     Apesar disso, ninguém do prédio sabia o que ele fazia com o que ganhava. Isso permaneceu um mistério. No dia seguinte, lá estava ele mais uma vez na calçada, a mesma caixa de papelão ao seu lado. E os dentes brancos.
     Em poucos dias ele se tornou conhecido em toda a cidade. Por onde caminhava, os dentes brancos flutuavam em seu rosto sujo com tal obscenidade que todos que o viam não conseguiam deixar de virar o rosto. Mas já era tarde demais: os dentes brancos tinham se fixado em suas retinas. 
     Ao ligarem a TV de suas casas, viam a apresentadora do telejornal gritar obscenidades e reclamar da sua vida sexual e mandar seu chefe pra puta-que-o-pariu, sem perceber em seu furor que o apresentador ao seu lado chupava seus peitos. Os dentes brancos pairando no vídeo atrás deles. 
     E então, mães de repente começaram a esfaquear, enforcar, jogar do alto de seus apartamentos os seus filhos para que não vivessem neste mundo. E se suicidavam em seguida. Os homens rangiam os dentes e como cães passaram a andar de quatro, brigando entre si, com arranhões e mordidas, pela merda que tinham feito nas praças, shoppings, restaurantes e sarjetas. 
     E cheios de culpa, freiras vinham esfregar a buceta na sua cara implorando pelo amor da Virgem Maria para serem chupadas e fodidas por ele, enquanto padres chegavam de pau duro erguendo as suas batinas e se posicionando de quatro com o cu piscando por perdão. E até as prostitutas chegavam chorando para adorar os dentes brancos e dar a ele tudo o que tinham conseguido na noite anterior. 
     “Dentes-brancos-dentes-brancos-dentes-brancos...”, todos repetiam como um refrão em meio ao vômito, à merda, às lágrimas e ao sangue de seus corpos.
     Carros abandonados no meio da rua, corpos cruzando-se como animais, casas abandonadas ou em chamas, lojas saqueadas por todos os lados por andarilhos que não conseguiam entender como as coisas tinham ficado assim. Quando perguntaram a ele, ouviram-no pela primeira vez falar, cada sílaba estalando como ossos que se moviam a custo depois de muito tempo em sono profundo: “Eles esqueceram seu papel”, e nunca mais disse palavra.
     Finalmente um dia, com ternos e gravatas, arrancaram-no do seu prédio e o algemaram. Os olhos injetados e a boca espumando, gritavam e berravam enquanto cuspiam nele. E ergueram os punhos e fizeram-no soltar sangue pela boca. Mas ele sorria, os dentes,       . E ao vê-lo na rua caminhando entre socos e chutes de homens engravatados, todos os outros de repente levantaram-se sobre duas pernas e juntaram-se a eles, fazendo um corredor conforme ele caminhava entre a multidão feroz, todos os sobreviventes, mais lúcidos do que nunca em sua loucura. Mas ele ainda sorria, os dentes,      . Levaram-no até uma praça, milhares em torno dele, até que ele finalmente desmoronou, com uma lágrima dançando por um momento no canto dos olhos antes perder-se entre a massa de carne informe que tinha sido seu rosto. Mas os dentes      

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Dark room


Com agradecimentos a Marcos.


     Você consegue escutar? Pois no escuro, apagava a sua própria existência para que o desejo que arranhava constante por dentro do seu peito o rasgasse em fiapos. Sim, você escuta. Como um disco arranhado que finalmente tocava... Aqui, no escuro, soa mais alto, não? E ele o escutava.
     Para que tinha vindo?
     Enquanto a música tocava, Miguel se posicionava sempre mais ou menos no centro da pista. Raios de luz – de todas as cores – deslizavam pelo céu como estrelas cadentes para entrar por suas retinas e incendiá-lo – queimando – por dentro. E sentia então como se asas imensas brotassem de suas costas, asas brilhantes e muito sólidas, elevando-o para o limiar da glória. E aquele que fosse beijar, seria Ele. Não é engraçado, então, pensar que quando você era criança você queria ser santo?
     Das alturas lançava olhares e esperava – esperava, esperava, esperava sempre – finalmente encontrá-lo. Para a redenção de todos. Você foi ensinado que nunca devia fazer maldade. Que tinha que ser bom, que tinha que rezar para Deus para protegê-lo das tentações... De quem eram aqueles olhos que agora faiscavam para ele? Mas você sabia, sim, que o tempo todo eu já estava lá. E aqueles lábios que com um sorriso convidavam para saborear o doce em sua boca? E um dia você descobriu que havia uma maneira. Com um ruflar de asas, Miguel se aproximou. Eu podia livrá-lo de todo peso de sua alma. E o beijou.
     Seus corpos se chocaram como se duelassem enquanto lentamente eram deslocados para um canto da pista. Você temia que eu fosse me materializar de um canto escuro, do ralo, debaixo da cama, de dentro do armário. E ali sua mão foi levada para a dura saliência que crescia, crescia... Eu te sufocava como uma fumaça venenosa que você tinha inalado e não conseguia expelir. Ele apertou com força... Você podia lutar, mas desde o começo sabíamos que o único jeito daquilo acabar era você aceitando a sua derrota. E então um desejo: “Quero te foder”. Eu nunca mais deixaria você em paz. E outro: “Então me fode”. E desde então, você nunca mais conseguiu dormir com a luz apagada.
     Sim, era para isso que tinha vindo.
     Sentiu uma língua molhada deslizar pela sua nuca enquanto mãos desabotoavam o botão da sua calça. O zíper e a calça abaixaram-se como se arranca um adesivo de cera quente numa pele já dormente. Quando nos olhamos no espelho você finalmente percebeu que já tinha feito. Algo molhado roçou por suas nádegas. Podia ser uma língua, podia ser um pau. Podia ser a bebida gelada. Mas sentiu ser rasgado – de repente – por dentro – até o talo. Viu? Eu tirei todo o peso de você. Não gritou – sorriu. A água corria incessante da torneira que você tinha aberto sem saber por quê. E então sua boca foi invadida por uma língua molhada. Desabafou seus suspiros na boca do outro. Pois só você pode escutar seus soluços. E quando achou que não havia onde segurar sentiu entre os dedos algo quente e palpitante, roliço, gordo. Suas mãos pequenas se apoiavam na beira da pia. Sabia exatamente o que fazer com aquilo: apertou-o com força enquanto deslizava a mão por ele. E mais um. Enfiou-as sob a água para senti-la correr entre os dedos, à espera. E finalmente, quando achava que não poderia se sentir mais pleno – mais livre –, perfurado em cada extremidade de seu corpo escancarado, sentiu a última martelada quando seu pau desabrochou dentro de uma redoma úmida e apertada. 
     E agora, o que aconteceria? Deus... 
     “Ai!”, exclamou. 
     Pois de repente sentiu outro transpassá-lo por dentro. Deus! Meu Deus... Por que você me abandonou? Mas toda dor era bem-vinda... Eu não sabia o que eu estava fazendo, eu não queria, eu não queria... 
     “Tá doendo!” 
     Já é tarde demais.
     “Tarde demais”, ouviu dizer.
     E ele sabia que era o seu odioso aliado.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Enquanto jazo aqui

     Estou sonhando ou acordado? Eu estava, me lembro, em frente à minha mesa de escrever quando comecei. Agora, como se o mundo tivesse se apagado, como se meus olhos tivessem sido toldados por pálpebras que eu insistia em deixar abertas, como se o vendedor tivesse de repente fechado a porta da loja correndo-a de cima a baixo para sempre para que nenhum cliente pudesse passar pelas minhas retinas – não devo nunca mais vender –, eu não consigo enxergar para saber onde estou.
     Sinto cheiro de flores. Talvez já esteja morto, e essa sensação de se estar se rasgando em fiapos por dentro – de decomposição – sejam os vermes que fazem carnaval sob minha carne – aqui. Enterrado vivo, o silêncio pesa como quilos – toneladas – de terra sobre minha boca escancarada num grito agora sufocado. Talvez seja por ela que eles tenham entrado, os vermes.
     Mas eu ainda sinto cheiro de flores.
     “Por favor, me deixa acordar”, eu ousei dizer em voz alta, mas só eu mesmo posso ouvir minha própria voz.
     Foi quando de repente senti meu celular vibrar no bolso da minha calça e o segurei entre as mãos. Era um milagre que entre tanta terra ele ainda funcionasse. Eu atendi.
     “Não vou poder te encontrar hoje. Eu não consigo sair de casa, eu... Eu não consigo.”
    “Onde você tá?”, eu perguntei, sentindo um olho tremer quando um verme escorreu molhado do canto dele. Se eles ao menos parassem de se multiplicar, talvez isso acabasse logo.
     “Em casa, em frente ao portão”, ele respondeu. “Eu tô com medo. Eu não consigo.”
     “Flores”, eu disse.
     “O quê?”
     “Eu sinto cheiro de flores.” 
     “Flores?”, ouvi meu amigo perguntar com a voz crescendo em pânico. “O que você quer dizer, me diz! O quê?”
     “Eu não sei.”
     Ele chorava do outro lado da linha. Tremia. Berrava. Tuu-tuu-tuu. Desligou.
    Gostaria de saber dizer a ele o que as flores são. Mas agora eu sou todo vermes. Sinto-os me despedaçarem por dentro com muita lentidão, um pedacinho de cada vez, ceia pútrida cujo prato principal não tinha chegado ainda. Não, não tinha chegado ainda.
     Mas enquanto jazo aqui, o cheiro das flores em algum lugar não vai deixar que eu sucumba. Por mais que eu queira, por mais que eu deseje me deixar ser devorado até o fim, acredito que no final elas finalmente vão desabrochar para a superfície e eu vou saber dizer ao meu amigo, a todos, a mim mesmo, o que elas querem dizer.   

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Um quarto esterilizado

    Quando um vento frio bateu era como se esterilizasse todo o calor. Eu, também, me senti esterilizado – como um quarto de hospital é depois que o cadáver  – que descanse em paz  – é retirado. Será que consigo chorar pelo corpo, agora que ele se foi? É claro que vez ou outra me lembrarei, mas com o tempo se tornará cada vez mais um rosto esfumaçado – lembra-se daquela vez em que
qual? 

já não consegue se lembrar ao certo, embora ainda leve flores para o túmulo em dias de cinzas, quando reconhece que, sem sua existência e morte, não seria o que é hoje – e que pode morrer a qualquer momento, antes até mesmo que essas flores em suas mãos murchem. Pois o que mede o tempo senão cada respiração-segundo enquanto nos julgamos – estamos? – vivos?
     Mas a sensação estéril não é boa também, percebeu. De alguma forma é a ausência. E como, agora, ocupar o quarto vazio e habitá-lo?  

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As flores


    E então ela se viu em um lindo jardim colorido por muitas flores de todas as cores, margaridas, gerânios, violetas, rosas, girassóis, crisântemos, orquídeas, nastúrcios. Como sabia o nome de todas elas? Apenas sabia. E enquanto entrava a caminhar entre elas, uma brisa suave fazia-as se inclinar gentilmente para o lado e roçar em suas pernas. E agora elas não estavam sussurrando? Estavam, por todos os lados, doces sussurros entre si, uma linguagem que ela não podia entender. O segredo do que as fazia tão belas, tão encantadoras. Belas, suas pétalas recebiam o calor do sol e brilhavam vistosas, em flor. E cada chuva era sentida por elas como uma benção – não lavava nada, não havia nada para ser lavado. E cada gota que, depois que o sol surgia, pendia cristalina delas, para logo cair sobre a terra, lentas, delicadas, como lágrimas – se de tristeza ou alegria, não importava – era belo, belo, e toda aquela beleza garantia algo a elas, embora ela mesma não soubesse ao certo o quê.
     O que ela estava fazendo ali? Como tinha ido parar ali? O jardim se estendia imenso por todos os lados, e já não podia dizer como exatamente tinha chegado lá. Mas tanto fazia. Lá estava, e isso é só o que se deve saber. Sem perguntas, sem perguntas. As coisas são assim.
    Ela deitou-se, sentindo as flores ao seu redor acariciarem todo o seu corpo, altas, cercando-a como paredes que, apesar de frágeis, ninguém ousaria transpor. Mas acima o céu estava azul, ela podia vê-lo, azul e distante, e ainda assim tão perto, tão perto... Se esticasse as mãos, será que o alcançaria?
    Mas não podia. Gentilmente, tão gentilmente com seus caules elas envolveram o seu pulso enquanto erguia a mão, e trouxeram-na para a terra mais uma vez. E ainda mais gentilmente ela sentiu o toque de seus caules em torno de seus braços e pernas, crescendo delicadas por todo o seu corpo. E se esperasse, conheceria o seu segredo...
     Mas o céu ainda estava azul, tão azul.
    O que elas estavam sussurrando? Agora assim, tão próxima, ela podia ouvir fiapos de frases inteligíveis, sussurros quase compreensíveis, quase audíveis, quase reais... Cercada por todas elas, que agora se debruçavam sobre si, como rostos de curiosos que olham de cima para uma estranha que acabara de desmaiar na rua, e você é essa estranha. E como tal, levante-se e finja que não foi nada, que foi apenas um momento de fraqueza, que está tudo, tudo muito bem – mas já era tarde.  As flores faziam parte dela, agora.  
      Flores demais, flores demais, ela repetia, flores demais... 
    De fato, havia tantas flores que ela também criou consciência de ser uma flor. A princípio sentiu seus braços moles como folhas, seus cabelos abrirem-se como pétalas, e parecia que seu pescoço e tronco e pernas se esticavam enrijecidos e formavam um caule. Então, ela já não podia se mexer. E passou a vida curta que lhe restava a vegetar, dependendo que a aguassem para manter a sua beleza. 

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Coi(n)to interrompido

     E então eu de repente percebi que quero escrever uma história de amor. Mas assim que essa ideia me assalta - e me deixa sem roupa em pele crua - e à espera de ser estuprado, talvez -, percebo que tem de ser um tipo muito específico de amor.        
    Deixemos o pau entrar até o gozo, então. Dois corpos. E toda vez que ele metia ficava confuso quando escutava: mete, Matt, mete, Matt, mete. E se perdia tentando adivinhar a tal ponto que em plena ereção em pleno cu de seu amante que implorava (ou reclamava? Ai, não conseguia dizer com certeza, era difícil e sem querer via-se confuso e) brochava.
 -  Mete, vai, Matt, vai, matt, Mete, Matt, matt, mete... O que aconteceu?    
    Cara engraçado, esse Mateus.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O término

Com agradecimentos a Nathália, Danilo e Alan.

     Você é uma ferida não cicatrizada. Sou melodramático e clichê, né? É o que você vai dizer, você sempre disse isso. Mas você é mesmo essa ferida, e não só em mim. É uma ferida em carne viva que caminha pela superfície do mundo, mas que está enraizada nele e foi por ele criada. E é por isso que eu te amo.
    
     Eu preciso me sentir completo. Sei que sou, mas não o sinto. Preciso perceber que sou completo, que tenho minha própria identidade, por mim mesmo. Sem precisar de um outro pra suprir essa falta que sinto em mim. E estar aqui com você é estar num santuário, numa bolha. E foi assim por muito tempo, por culpa minha.

      Não, não foi culpa sua. Quando nos conhecemos, eu vi no seu corpo frágil e magro de menino a iminência de um rompimento que com o meu, de homem robusto e maduro, pretendia envolver, proteger, e evitar. Quando você falava, sentia no timbre da sua voz o tremor da insegurança de quem não está pronto pra enfrentar a vida sozinho.

     – Eu vou cuidar de você.

     E você me ouviu, enfiando-se por entre meus braços abertos que, no fundo, procuravam a matéria de que você era feito e que eu tinha perdido. E também eu me ouvi, ouvi, como se não fosse minha, minha própria voz prometendo, mesmo já sabendo que aquilo era algo que eu jamais poderia ter cumprido.

     A culpa é de nós dois, na verdade. Mas, de qualquer forma, essa bolha não existe mais pra mim. Rompeu-se faz tempo.

      Sim, você sempre pretendeu um amor pleno, você dizia. Um amor em que nada entrasse no meio, nada atrapalhasse. Dia e noite, éramos só eu e você, e o mundo que se fodesse. Percebendo, mas sem querer não percebendo, que tudo isso era uma fuga que você tinha criado, deixei assim estar. E, ao mesmo tempo, entendia. Tentei, então, mantê-lo nesse mundo de todas as maneiras, enquanto via lentamente toda a estrutura que você tinha criado com suas ilusões desmoronar. Fui cruel? Deveria tê-lo ajudado a enfrentar tudo isso? Mas me parecia que, a cada passo que tomava nessa direção, mais fazia-o mergulhar em toda essa ilusão, e tornava-me cúmplice de uma fuga que, com o tempo, percebi que não era só sua. Sabia o que era necessário, mas tive medo.

     Fiquei encantado com você porque achei que você ainda era o mesmo de antes, do seu passado que você me contou brevemente uma vez, que lutava pelo que acreditava e via uma possibilidade fora de tudo isso. O tempo todo, enquanto estava com você, esperava para ver o momento em que esses sentimentos desabrochariam e, juntos, pudéssemos plantar um jardim no asfalto.

     Mas você não entendia.

     E então finalmente percebi que na verdade ao redor de você você criava uma parafernália de objetos orbitantes, um verdadeiro arsenal para que eu não te alcançasse. Mas esse era você, pois somos também a construção. Agora percebo isso. Parecia que você era o que você tinha, toda a mercadoria que você podia oferecer, menos para os outros do que para si mesmo, em troca do que tinha perdido.

     Eu sei, eu sei. Mas é que não dá pra simplesmente deitar em sua cama e fechar os olhos esperando com ingenuidade que você vai adormecer momentaneamente. Precisei de remédios: lexotam, diazepan e o caralho-a-quatro. Algo tinha se perdido para a minha geração. Eu fui como você, e queria que você fosse como eu, ao mesmo tempo desejando que eu fosse como você. Louco isso, né? Mas era assim que eu me sentia. Um pouco de você em mim, e um pouco de mim em você. Mas talvez isso tudo seja muito egoísmo de minha parte e que minha motivação tenha sido tê-lo para, sob mim, calá-lo. Pois vi em você um pedaço de mim que eu tinha perdido, pedaço que sabia que, inevitavelmente, se perderia em você também. Acho que quis segurá-lo antes da queda.

     E, ao mesmo tempo, inconscientemente, eu admito, era tudo muito calculado por você para que eu não percebesse que no escuro vazio por trás de todo esse equipamento havia dois olhos insones e constantemente cheios de lágrimas que, não importa o quanto você tente secá-las, nunca param de cair. Tô errado?

      Tá, eu respondi. Mas não tava. E eu ainda o escuto gritando em meus ouvidos tudo o que você tinha dito, e procuro pôr um ponto final nessa narrativa, mas você aparece sempre antes de cada desfecho, antes de cada peripécia, para me mostrar que, na minha vida, desde que você se foi, não há peripécias.

     Não me procure mais, por favor. Tudo isso é uma construção, e não sei mais quem sou. Mas é preciso lidar, é preciso lidar.

      Você repetiu isso para si mesmo várias vezes.

     Se você não me escuta e me cala, se em você você nega essa voz que não é só minha, mas que também é sua, eu não me calarei.

      Na verdade, você nunca se calava, e o resultado era desastroso. Era tudo fora do lugar, distorcido, inadequado. Você não sabia se expressar. Era assim como um conteúdo sem forma. Sempre senti que em você havia um turbilhão que seu corpo frágil de menino não ia aguentar por muito tempo e a qualquer momento se romperia, sua pele toda se rasgaria, você explodiria e seus ossos e tripas se espalhariam pelo chão, pedaços do que antes tinha sido um todo pretensamente uno.

     Adeus. Pode ser que nessa busca eu sucumba. Pode ser que, quando achar que esteja encontrando meu caminho, me veja em mais uma armadilha que eu mesmo tenha criado. Pode ser até que eu, como você, seja uma geração que buscou e desistiu, mas preciso tentar encontrar. E pode ser que nosso diferencial seja que você tinha caído num mundo em que os ideais estavam ali, e o caminho supostamente traçado... Quanto a mim, não há nada, eu cheguei e as coisas já estavam assim, sem caminhos além de trilhas estreitas que devo abrir no meio dessa mata fechada e que podem me levar a um abismo. Mas, nem que seja sozinho, é preciso tentar.

      A gente sempre está só, quis dizer. Mas com o bater da porta percebi que você já sabia. Caminhei então até o quarto, deitei-me na cama e, sem ingenuidade, sem idealismo, tomei todo o meu arsenal. E durmo.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Eu me apaixonei por um menino morto


Inspirado pela música de mesmo título,
"I fell in love with a dead boy",
de Antony and the Johnsons.


     “A morte é o acontecimento mais extraordinário da vida”, pensava Enoque. Pois quem não gostaria de não ser? É o estágio mais completo da existência. Pois ele sabia que a única graça de estarmos vivos é sabermos que vamos morrer. E ansiava por isso, de modo que todo dia vivia na iminência do Grande Acontecimento.
     “A morte é a coisa mais bela pra se viver”, costumava dizer, mas ninguém entendia.
     Sua mãe retrucava dizendo que ele devia parar de pensar em besteira. Afinal, ele ainda era um mocinho e tinha uma longa vida pela frente. Devia sair mais com o irmão, fazer amigos, paquerar meninas. 
     Mas Enoque não precisava de nada disso. Não ousava revelar a ninguém, mas já tinha uma amiga e amante secreta. Ele a sentia roçar diariamente por sua pele, seu tato cálido e seu hálito frio lhe davam arrepios de volúpia, ao passar correndo em frente a um carro ou ônibus, o mais próximo possível – e inexplicavelmente sempre conseguir se safar, sentindo o vento do carro passar atrás de si. Ou ao ficar deitado sobre o trilho do trem esperando-o se aproximar. Não se levantava, não se levantaria se ele chegasse. Mas sempre vinha alguém que o fazia sair dali, ou ele de repente se lembrava que tinha algo muito urgente a ser resolvido antes de sua morte, que não podia ser deixado para trás de jeito nenhum, embora logo em seguida não conseguisse lembrar ao certo o que era. E havia os acidentes também: sabia que podia a qualquer momento sofrer um ataque cardíaco, pois já tinha ouvido falar de garotos da sua idade que tinham passado por isso – e então se entupia de batatas fritas e lanches; podia morrer num assalto – então toda a noite pulava a janela de seu quarto e saía pra caminhar na madrugada. E até mesmo um piano podia cair de repente do alto de um prédio em notas trágicas sobre sua cabeça.
     Às vezes, sem perceber, deslizava seus dedos pela virilha e brincava com seus pelos púberes como se fosse ela quem o roçasse sem nunca tocá-lo plenamente. Ansiava por seu cortejo, deitando-se sobre o piso frio do seu quarto banhado pela luz transparente da lua que penetrava pela janela. Nesses momentos, sentia-se mais próximo que nunca dela.
     Tinha alguns hábitos incomuns, é verdade. Gostava, por exemplo, de capturar sapos, deixá-los dentro de um pote até que morressem e, depois, dissecá-los para tentar então compor um novo ordenamento dos órgãos para criar outro tipo de ser. E sentia prazer em chorar pela morte do sapo enquanto tentava restaurar-lhe uma nova vida no lugar da antiga que ele mesmo tinha tirado. Além disso, gostava de flores. Quando sua mãe jogava fora as que tinham morrido nos vasos que ela deixava sobre os móveis da casa, Enoque ia sorrateiramente até o lixo, antes que o lixeiro passasse, para resgatá-las para decorar seu quarto. Pois era um menino sensível, vestindo-se de preto e mantendo seus longos cabelos oleosos, tão loiros que quase sem cor, cobrindo-lhe o rosto pálido, de modo que a sua aparência refletisse o seu estado interior. Sim, estava morto por dentro.
     Foi então que um dia, finalmente, em uma de suas andanças pelas ruas de sua cidade de madrugada, Enoque encontrou a Morte pessoalmente.
     Tinha dias em que, enquanto caminhava, ele enxergava ao longe a luz dentro do velório acesa. Corria até lá e olhava para dentro: se estivesse cheio, entrava, pois assim passaria despercebido. Gostava muito de estar ali. Sentia-se muito à vontade para chorar junto aos outros, sem causar nenhum espanto a ninguém por seu excesso de lágrimas. E pensava sempre ansioso quando seria a sua vez. Imaginava a si mesmo morrendo, toda a sua família, pais e irmão, avós, tias, primos, todos chorando pela sua morte enquanto ele ali estaria deitado no caixão vivenciando o seu tão esperado momento. E então chorava mais ainda.
     Mas quem está ali agora? Aproximou-se lentamente, aos poucos parando, enxugando uma lágrima aqui, outra ali, até que, quando chegou bem perto, viu.
     Ela devia ter a sua idade. Seus cabelos pretos e compridos caindo ao redor do rosto já frio e pálido, enrijecido, mas seus lábios ainda muito vermelhos, delicados, fechados naquela superioridade póstuma de quem não tinha mais o que viver e nada podia esperar a não ser o fim. Seu estado estava em harmonia com sua aparência: era tão bela, as mãos finas gentilmente dobradas em paz, indiferente às lágrimas ao seu redor, o estágio mais completo da existência, flutuando sobre as flores brancas que cobriam todo o contorno de seu corpo.
     Enoque chegou mais perto, sem se importar com as pessoas ao seu redor. Nunca tinha visto algo tão lindo. Era como se fosse a própria Morte, ali, deitada, exatamente como ele tinha imaginado em seus devaneios mórbidos.
     Tocou gentilmente as suas mãos. Seu toque frio o fez estremecer.
     “Qual é o seu nome?”
     Mas ela não respondeu.
     “Vocês eram amigos?”, ouviu de repente uma voz feminina embargada de choro ao seu lado. “Desculpa, é que ele tinha muitos amigos e–
     Sua mão se afastou. Ele recuou sem responder.
     “É um menino?”, exclamou consigo mesmo, com aquele tom muito peculiar de surpresa que fazemos quando encontramos por acaso algum conhecido que não víamos há anos. Há tanto tempo que parece ser outra pessoa – mudou o corte do cabelo? Sim, gostou? Prefiro você como antes, mas o que se pode fazer... Já está cortado – diria alguém mais sincero. Mas Enoque acrescentou rápido para si mesmo: “Mas é um menino morto. Tá morto”.
     Quando chegasse em casa, pensou, contaria à sua família tudo sobre ele, com os olhos cheios de lágrimas. E com um sorriso gentil cheio de recordações de toda uma vida, diria: “Queria que vocês tivessem conhecido ele”.
     Pois já se conheciam há muito tempo, é claro. Desde sempre. É verdade, passaram algum tempo afastados, ele tinha se mudado pra longe em algum momento de sua vida. Mas então tinha voltado. No dia do reencontro, foram ao cemitério juntos e de mãos dadas contemplaram a luz da lua sobre os túmulos agora cor de pérola. E brancos como a cera de uma vela tocaram um ao outro com sua chama.
     Andaram, também, por toda a cidade e descobriram coisas juntos sobre si mesmos que sozinhos jamais saberiam. Aprenderam a lidar com os defeitos dos outros e, acima de tudo, de si mesmos: ele não gostava de dissecar sapos, nem de chorar fechado em seu quarto, nem de flores murchas. Toda vida, ele dizia, devia ser prezada.
     “Olhe pra mim”, dizia, “Posso até estar morto, mas quero continuar vivo.”
     Os anos então se passaram, eles cresceram e formaram uma família. Tiveram um jardim em que criaram sapos e não deixaram nenhuma flor morrer. E embora toda noite, antes de dormirem juntos, conforme envelheciam, pensassem empolgados que poderiam acordar mortos (pois de que outra maneira poderiam morrer?), ao acordarem cantavam e batiam suas imensas asas para voarem juntos ao longo do dia.
     Toda uma vida juntos. Toda uma vida juntos e então ele se foi. Chorou por semanas, meses, anos, sabendo que jamais amaria novamente. E agora mora em um solitário casebre à beira de um penhasco, sobre um mar de ondas que foram formadas por suas próprias lágrimas de anos, batendo tristes e silenciosas contra os rochedos. E ninguém da cidade se aproxima, pois lá mora um velho que tinha se casado com a própria Morte e agora, diziam, estava condenado a jamais morrer. Mas, se ousassem se aproximar, entretanto, ouviriam a mais bela e mórbida história de amor entre dois homens, só que um deles, morto. Não...
     “Está na hora”, ele de repente ouviu a voz do padre soar alta no velório.
     Não, não! Não conseguia controlar suas lágrimas, não podia suportar vê-lo ser levado assim pra longe, pra sob a terra. Não queria vê-lo morto!
     Enoque correu para fora do velório, correu pelas ruas chorando sem parar, correu até chegar em casa. Pulou a janela do seu quarto e deitou-se em sua cama, condenado a chorar por toda a eternidade por uma vida que ele tinha perdido sem ter.
     Mas, de repente, sentiu um toque quente nas mãos. Um calor sobre a pele. Lentamente abriu os olhos e demorou a se acostumar com a claridade do sol que via entrar pela janela do seu quarto. Amanhecia.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Meu pai morreu


     “É sua mãe no telefone, Marcos”, disse a telefonista na empresa.
     “Minha mãe?”, perguntou, surpreso. Ela quase nunca ligava.
     “Ela disse que é importante”, acrescentou a... mulher. Qual era o nome dela mesmo? Sempre esquecia.
     “Pode pôr na linha, por favor.”
     “Marcos?”, ele imediatamente ouviu a voz da sua mãe do outro lado. Mas estava diferente, mais frágil.
    “Mãe?”
     “Seu pai morreu”, ela disse simplesmente.
     Houve um soluço? Sim, houve, e agora ela chorava do outro lado da linha. Mas... Seu pai tinha morrido. Se-u pa-i ti-nha mo-rri-do. Seu-pai-tinha-morrido! Levantou-se, sentiu-se tonto, sentou-se. Seu peito doía.
     “Marcos, você tá aí?”
     “Sim, mãe”, respondeu, sua voz tremendo, podia sentir. E não sabia o que dizer.
     “Eu sei que vocês... Que vocês não se davam bem e que... Mas você vem, né?”
     “Sim.”
     Precisava dizer algo mais.
     “Com certeza, mãe. Claro que eu vou.”
     “O velório vai ser amanhã às três da tarde, filho.”
     A voz dela estava embargada de choro, quando disse “filho”. Quis dizer algo mais. “Eu te amo.” Ou: “Não chora, não chora, mãe”.
     “Eu vou estar aí amanhã bem cedo.”
     Mas ela já tinha desligado.
     O que havia para sentir, exatamente? Seu escritório alaranjado pela luz do fim de tarde que entrava pela parede de vidro atrás de si, aquela luz que ele tanto gostava e trazia a sensação de o dia estar acabando, estar no fim. No fim... E o que era aquele sentimento no peito que doía, como se algo apertasse o seu coração com mãos de ferro, e torcesse, espremesse, como se espreme uma laranja para que algum suco saia? Estava seca? Poderia alguma lágrima ter escorrido? Mas não conseguia – não conseguia. E ficou sentado, imóvel, sentindo a luz se extinguir lentamente e tudo se tornar indistinto, lentamente as cores e as formas se esvanecendo conforme a escuridão avançava dos cantos, frestas e fendas – e fendas – de seu escritório para que ele então, finalmente, só então – finalmente – chorasse.

     Amanhã queria levantar cedo, bem cedo, amanhã. Isto é, se conseguisse dormir. Mas tinha que sair cedo, de qualquer forma – demoraria umas três horas para chegar à sua cidade, sem trânsito. Assim que chegasse em casa, já ia deixar suas malas arrumadas. Nem ia tomar café quando levantasse. Queria passar o máximo de tempo possível com seu pai – que tinha morrido. Seu pai que tinha morrido. Fechou os olhos agora, no sinal que estava fechado, vermelho – podia, tinha acabado de fechar –, e sentiu como se fosse chorar, iria chorar agora, tinha certeza – seu pai tinha morrido –, mas não chorou.
     Em vez disso, lembrou-se sem querer de quando tinha conseguido sua carteira de motorista e saiu para dirigir, com seu pai ao seu lado – seu pai, que estava vivo então. E de como ele vigiava até mesmo o modo como ele passava a marcha. Cada detalhe. Até mesmo isso. E aquele seu olhar de reprovação. Sempre, o olhar de reprovação. O último olhar que recebeu dele, antes de partir. E então veio à sua mente a imagem de seu pai olhando-o com reprovação – mas seu pai que já tinha morrido, olhando-o com reprovação do caixão.
     A buzina do carro atrás do seu o despertou, o sinal já estava verde, ele não tinha percebido.
     Sim, aquele olhar de reprovação. Aquele olhar que dizia que agora, meu filho, isso é tudo o que você vai ter de mim – já é tarde demais, tarde demais. Ele então apertou com força o volante entre as mãos, e passou a marcha do jeito que ele sabia que seu pai não gostava, e pegou no câmbio com gosto.
     E mais uma vez lembrou-se daquela vez na piscina, e de como seu pai o tinha forçado a desligar o botão do registro (que fazia com que o jato saísse na água da piscina), depois que tinha saído da água, molhado, junto com seus primos. E de como todo mundo, os seus primos, olhava para você com pena, porque seu pai, embora você dissesse que estivesse dando choque – “Tá dando choque, pai!” –, forçava-o a desligar. E você no chão, tentando apertar o botão, e ele no alto, imenso, ameaçador, os olhos injetados de algo que você não sabia o que era então, forçando-o a ser o que você não era e queria que você fosse. Assim como com sua mãe.
     Minha mãe, Marcos pensou, lembrando-se das vezes em que o macho, como um parasita, drenava toda a força dela, para que se fizesse mais macho. De como sua mãe, como uma flor indefesa, esperava para que ele ali estivesse e para que ele a aguasse e ela pudesse existir. Pois, para ela, ele tinha que ser o único jardineiro – e nós todos, flores. Nós, todos flores.
     “Me dê água, meu bem.”
     “Me dê água, pai.”
     “Mas um filho não pode ser uma flor”, diria meu pai, quando fosse a minha vez.
     Pois minha mãe – eu te amo, mãe – foi a única que me entendeu, e mais tarde entendeu também toda a loucura desse sistema de irrigação que foi criado na minha família e que a fazia ser uma frágil flor quando poderia ser, também ela, uma jardineira – ou o que quer que quisesse –, e seu filho, uma flor – ou, também ele, o que quer que quisesse. Mas depois da esquina do entendimento – finalmente estou chegando em casa, agora – repousa a autossobrevivência. E, embora ela já soubesse que não precisava ser uma flor, já era tarde para abandonar o seu canteiro, pensou Marcos, entrando agora na garagem do prédio.
     Pedir, insistir. Alguém dá, alguém recebe. É sempre assim? E então o que ele falaria pro Gui, agora? Que seu pai tinha morrido? Sim, ele tinha que dizer isso. Sim, sim, tremendo, sozinho, como se até mesmo aquele ventinho gostoso que sempre vinha da janela aberta da sala e que eles tanto gostavam fosse demais, como se com aquele ventinho a sensação piorasse – era tristeza, solidão, abandono? –, como se só com aquilo ele se sentisse como se não quisesse sentir mais nada, a não ser algo – ou alguém? – que só o Gui poderia trazer agora, ele tinha que dizer: “Meu pai morreu”.

     “Onde você tava?”, perguntou Gui, assim que ele entrou em casa. “Fiquei preocupado, já são quase nove.”
     Será que ele já sabia?
     “Quase nove? Acho que perdi a noção das horas no trabalho, desculpa”, disse, fingindo um sorriso.
     “Dia puxado?”, perguntou Gui, aproximando-se.
     Ajudou-o a tirar a gravata, que ainda apertava o seu pescoço. E sorriu, o Gui.
     “Sim.”
     “Meu pai morreu”, quase disse, mas ficou em silêncio.
     “Ai, o meu foi horrível!”, exclamou Gui de repente, abraçando-o e quase chorando.
     “O que aconteceu?”, perguntou Marcos, acariciando a cabeça dele e sorrindo, o mesmo sorriso.
     “O mesmo de sempre, no trabalho. Ai, eu não aguento mais!”, chorou Gui, mas, ao olhá-lo, acrescentou: “Deixa pra lá, amor. E aí, já comeu?”.
     Sim, esses eram eles. Gui pedia, ele dava. Mas Gui pedia por hábito, e ele também dava por hábito. Todo relacionamento, Marcos pensava, todo relacionamento, depois de tanto tempo, cria certos hábitos que somente o conhecimento recíproco cancela quando necessário. Pois essa é a dádiva: hábitos e conhecimento recíproco, aqueles para a sobrevivência, este para a salvação. Suspirou aliviado.
     “Tô sem fome”, disse. “Só quero tomar um banho agora.”
     “Quer companhia?”, perguntou Gui, com aquele sorrisinho que conhecia bem e que tanto gostava em outras ocasiões.
     Mas agora...
     “É que eu tô muito cansado.”
     E por que ele não dizia nada? Tinha medo? Não queria? Não, não era isso. Só não sabia como. Como dizer que seu pai tinha morrido, como dizer que era ele, agora, quem precisava receber? Pois não tinha mais o que dar. Não tinha, não agora. Além da dor, era seu pai quem tinha morrido.
     Quando saiu do chuveiro, encontrou Gui sentado na cama.
     “Tá tudo bem mesmo?”, perguntou ele.
     Ele tinha percebido.
     “Sim, por quê?”, disse em vão, enxugando-se distraidamente, e torcendo para que seu pênis exposto, balançando, distraísse de alguma forma a atenção de Gui.
     Mas Gui continuou:
     “Você sempre chega com fome, e hoje não comeu. Você nunca rejeita um banho comigo, também”, ele disse, sério. “E você não me beijou quando chegou”, acrescentou, baixando os olhos.
     “É verdade.”
     Não conseguia dizer mais nada. Mas acrescentou (precisava acrescentar algo, era o Gui):
     “Vem cá, vem dormir comigo. Amanhã eu vou estar melhor.”
     Os dois se deitaram juntos. Gui virou-se de costas para ele, que agora devia abraçá-lo, era o hábito. Mas ele não abraçou, e também se virou de costas. Não queria abraçar. Ainda de costas, Gui percebeu, puxou-o pelas mãos para que fosse abraçado, mas ele ainda continuou imóvel. Um ventinho vinha da janela do quarto, e ele tremia, ele se esvanecia, e Gui não conseguiu mais tocar as suas mãos para ser abraçado.
     A cama rangeu, Gui se virou, e ele sentiu as mãos dele em torno de sua barriga.
     “O que foi, Marcos?”
     Mas ele não respondeu – não ainda. O ventinho vinha, mas Gui apertava-o com as mãos – suadas, preocupadas, as mãos do Gui – e o protegia. Sentia todo o corpo dele quente em suas costas.
     Estava seguro.
     “Meu pai morreu.”
     Ouviu Gui se surpreender e, em vez de falar, abraçá-lo em silêncio, apenas. Não falou nada, apenas o abraçou. Suas mãos de delicadas tinham se tornado másculas em torno de si, envolvendo-o como pétalas envolvem uma flor. E então, de repente, Marcos segurou entre os dedos o pênis palpitante de Guilherme e o colocou dentro de si, fazendo-o deslizar por entre seus pelos mal aparados, pela primeira vez.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Advertising

     Um rosto sorrindo como se a plenitude estivesse em seu sorriso e olhar vagamente - só vagamente - estrábicos. Era como uma moldura preenchida por algo que se fazia passar por tudo sendo nada. E não era uma máscara - não, era exatamente aquilo: pleno, feliz, luminoso sob a luz que incidia em cheio sobre seu rosto corado de satisfação, mas estreito, incabível por não se caber e, ainda assim, cabendo.
     "Você é o que você faz", dizia o anúncio.
     E por um momento ele fechou seus olhos cansados por nunca estarem despertos e viu a si mesmo sentado em seu cubículo de escritório sendo. E chorou.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O assalto

          Agora eu só sinto essa sensação de impotência que me faz querer rasgar em pedaços aqueles filhos de uma puta que me assaltaram mais uma vez. Na primeira vez em que fui assaltado, eu chorei, me senti nu, um lixo, uma sensação terrível de fragilidade e exposição que me fazia querer retirar-me no meu próprio casulo e esperar que tudo passasse para que eu finalmente pudesse sair de novo. Só que não passava, estava aqui dentro. É preciso lidar: o mundo, eu sempre penso, é um lugar terrível. E mesmo sabendo que há desigualdade, que o mundo é injusto também com os meninos que me assaltaram, agora eu só sinto ódio. E se estivesse em meu poder, botaria fogo onde eles vieram. Todo o escrúpulo, toda a consciência, toda a percepção de que, no fundo, não é culpa deles, se vai quando somos nós mesmos que estamos em jogo.
            E isso é horrível. Penso neles, nascendo em uma favela, passando a infância cercados por caminhos que já estavam abertos pra eles e mais fáceis de serem trilhados do que em comparação com aqueles que eles viam, de relance, passando velozes no canto de seus olhos, fugidios e intangíveis, os caminhos dos meninos que passam dentro de carros nas ruas, caminhavam pela Paulista fumando um cigarro e com um tênis grande e luminoso que marcava presença, eles achavam. Só que não podiam. E mesmo na escola, que supostamente deveria lhes mostrar o caminho, a eles era apresentado apenas um beco sem saída.
            “Vocês nunca vão ser alguém na vida!”, já esguelava a velha professora filha da puta que mais de uma vez os tinha mandado para Diretoria, Maicou e Clélio.
            Maicou e Clélio – esses poderiam ser o nome deles. Maicou dói, não? É tão feio, é tão... Me causa certo incômodo. Então esse é o caminho. Sair de mim mesmo, sair desse egoísmo que flui a cada pulsação de meu sangue por todo o corpo e me faz desejar neste exato momento que Maicou, o preto tingido de loiro que me segurou pelos braços, e Clélio, o outro macaco de moleton de mano que supostamente tinha uma arma e arrancou de minhas costas minha mochila com tudo de que eu precisava dizendo “filho-da-puta-cala-a-boca-senão-te-estóro!” – Maicou e Clélio, mortos. Mas não.
            Primeiramente, sem clichês. Eu estava bem até então. Maicou e Clélio – nascidos na favela, ao perceberem que para eles não havia caminho para o que o sistema lhes prometia, resolveram consegui-lo por suas próprias mãos. Eram pequenos furtos no começo: entre a multidão no centro ou dentro de algum ônibus, corres que faziam pra outros brothers. “Brothers” – será que eles usam isso? Tenho amigos que usam isso, eu às vezes também, mas não os vejo usando. Não, não os vejo usando. Espera, isso é uma falha. Isso quer dizer que eu de alguma forma me acho superior a eles, quero causar um distanciamento – eu falhei, aqui. OK, brothers.
            “Bora fazer um corre lá pro bróder nosso lá na Remo?”, Clélio disse a Maicou, que estava de boa fumando um com seus brothers num beco qualquer – com quantos anos? – doze, treze?
            “Porra, aquele filho da puta que demorou pra dar nossa grana?”, Maicou, o mais agressivo, exclamou.
            “Porra, mano, mas ele pagou no final! Ele vai dar uma arma pra gente agora, tá ligado?”
            E foi assim que eles pegaram numa arma pela primeira vez.
  Espera, está horrível, isso. Vou começar tudo de novo. Vai ser assim: nada do passado de Maicou e Clélio, quero só eles saindo da favela até o meu encontro. E por toda essa trajetória todas as justificativas terão de estar nas entrelinhas de modo que, durante o assalto, ninguém sinta ódio deles por estarem me assaltando. Será apenas uma consequência lógica. E agora eu me retiro.

***

            A favela era um mundo completamente à parte de toda a cidade. Era onde nasceram, onde viveram, onde aprenderam a segurar uma arma e a atirar, onde aos poucos conquistaram o direito de se inserir no mundo conseguindo o que queriam à força. E naquele dia eles resolveram, os dois, saírem em busca de alguém de quem pudesse roubar.
            Pois era fácil. Se tivessem uma arma, tudo viria naturalmente em suas mãos. E não havia peso na consciência – por que haveria? Há muito tempo tinham criado consciência de que não eram piores que ninguém e que, já que não lhes abriam portas, iriam arrombar-lhas com os próprios pés. Além disso, se algumas coisas tinham surgido facilmente para muitos playboyzinhos de merda que viam por aí, por que para eles tinha que ser diferente? Queriam a facilidade, também. Eram justos.
            Odiavam ter de pensar que o faziam pela sua família. Era uma questão de orgulho – sentiam que se o fizessem era o mesmo que provocar pena nos outros e uma justificativa de que não precisavam. Era tudo muito claro já. E sentiam-se ofendidos quando suas mães voltavam do trabalho na casa de uma patroa trazendo sobras do almoço ou do jantar –cansadas do caminho de ônibus ou que faziam a pé, mas com um sorriso de conforto ao saberem que ela e seus filhos teriam o que comer. Não, não. Eles queriam trazer o que comer, eles, que não podiam dizer que roubavam e assaltavam para elas, e que para fazê-lo diziam que tinham arrumado um bom emprego e o caralho-a-quatro. Mas roubar, jamais! Deus não queria isso, Jesus castigaria, a gente tem que saber que alguns nascem ricos e outros pobres e que as coisas são assim, ouviam suas mães dizerem.
            Jesus, Deus? Porra, o único Jesus que conheciam era aquele que lhes dava a sorte de encontrarem alguém com uma mochila com notebook ou iPad. Davam uma grana do caralho, essas coisas.
            Toda noite saíam de carro e alternavam o ponto onde fariam o assalto. Também a hora. Tinha uma ladeira a alguns quarteirões de distância da favela que era mó esquema, e pelo menos uma vez por semana o motorista parava o carro pra que eles descessem a ladeira pra assaltar o primeiro mané que viesse – porque lá pela onze da noite não tinha ninguém lá. Até tinha um segurança da rua numa cabininha, mas o cara se cagava todo com eles. Nem arma tinha.
            É, tinha um motorista. Na real, eles trabalhavam prum cara, que dava pra eles tipo uma comissão dependendo do que eles roubavam no dia, tá ligado? O cara curtia.
            “Cês são os melhores, moleques!”, ouviam o chefe dizer, os dentes de ouro brilhando entre a fumaça da maconha.
            E os dois se enchiam de orgulho, porque eram bons em alguma coisa. E eram mesmo. Maicou era sempre o mais agressivo, o que segurava quando era preciso, mas Clélio sempre carregava a arma porque atirava melhor e era mais controlado. Uma vez Maicou quebrou os dentes de um maluco aí que tava fazendo cu doce e tinha carro vindo. O cara veio com papinho de que era filho do delegado da puta-que-o-pariu e que eles estavam fodidos se eles o roubasse.
            “Tá querendo a boca cheia de formiga, maluco?”
            Maicou puxou o cara prum canto embaixo do viaduto e Clélio meteu três balas pelo cu dele. Quando contaram pro chefe levaram bronca, mas foda-se. Tem gente que pede pra morrer, mano. Mas nem deu nada depois, foi suave.
            Naquele dia desceram a ladeira e encontraram um mané. Era um moleque de óculos que devia estar voltando da faculdade, com cara de filhinho de papai que teve tudo na mão pra estar com a mochilinha com os livros e o mp3 no ouvido. Tem neguinho que assim que vê já levanta a mão porque sabe que vai ser assaltado. Foi papo.
            “Filho-da-puta cala a boca senão te estóro!”, Clélio gritou.
            E Maicou já segurava o cara pelo braço e arrancava a mochila das costas dele. De resto era só vazar dali e falar pro maluco seguir outro caminho e calar a boca senão iam meter bala na cabeça dele...
            Só que o mané que roubavam era o mesmo narrador deste conto.
            Maicou e Clélio subiam a ladeira achando que o mané tinha ficado pra trás, então não viram que ele correu até o segurança que se cagava todo na cabininha e pegou a arma dele. É, o cara tinha uma arma.
            Eu dei primeiro um tiro nas costas do Clélio, que caiu, e então logo depois um na perna do Maicou. Os dois não esperavam. Não deixei pegarem a arma, cheguei e chutei pra longe. Então meti primeiro uma bala na cabeça do Maicou: deixei o cabelo dele vermelho, ficou bem melhor. Foi gostoso ouvir ele me xingar de filho-da-puta enquanto eu já apontava a arma pro focinho do desgraçado. O outro nem conseguia se mexer, então foi fácil brincar com ele: um tiro no pau, outro na outra perna e, enquanto ele chorava e gritava, esperei um pouco até mandar um na cabeça.
            Ouvi o barulho do carro que os tinha trazido de longe, então saí correndo, com minha mochila de volta.
         
            Admito que falhei, mas não pude evitar. E apesar de me sentir melhor, agora me sinto mais nu do que antes. E vocês?
         

Florzinhas e cactos

   Eu fui a uma floricultura. Não. Eu fui comprar verduras e no caminho de volta eu passei em frente a uma floricultura e comprei flores. Se não passasse em frente não compraria. E se passasse também não. É que ninguém eleela poucos compram flores hoje em dia a não ser pra dar pra namorad–. No caminho de volta eu comprei e quem me visse na rua cheirando cheirando com força aquelas rosas que meu nariz de fumante não deixava sentir todo o cheiro, que desespero!, quem me visse me acharia um romântico andando pela rua com flores pra dar pra namorada(o?).
   Não, foi assim: eu passei em frente à floricultura e achei que devia florear a minha vida. Então entrei e senti aquele cheiro de flores misturadas e disse pra senhora florista que lá tinha um cheiro muito bom e ela disse com um muxoxo, ai nem sinto mais. É que nem hospital, quem trabalha lá nem sente o cheiro, ela disse, e eu disse, é.
   - Queria comprar uma flor que não precisasse aguar muito, que durasse, sabe? Além de cactos, quais tem?
   - Tem essas aí. (Ela disse apontando pra umas bonitinhas florzinhas rosavermelhoamarelas.) Elas duram um pouco mais. Assim.
   - Ah.
   Olhei para os cactos. Um tinha um formato fálico que nem pinto duro. Nem quis. Gosto de pinto duro mas não tava na vibe, queria florear. Uns outros tinham um formato meio assim estranhos, formato de nada. Eram feios. Uns outros tipo assim vários cactos numa cestinha de barro mas deviam ser caros, eu pensei.
   - É que cactos são feios, né?
   - Ah. Eles não são feios. (Ela disse aguando umas bonitinhas florzinhas.) Eles são assim.
   - É.
   Saí da loja e não comprei nada. Mas uns cinco ou seis passos depois, sete, acho, eu ainda ouvia ela dizendo que eles eram assim. Voltei.
   - Oi, vou querer um cacto.
   Comprei um pequeno cacto e pra completar o troco comprei rosas e umas florzinhas amarelas e brancas. Cheguei em casa e pus todas em garrafas de vinho vazias com água. O cacto ficou no vasinho. Agora vejo as rosas e florzinhas amarelas e brancas e elas estão morrendo. O cacto ainda está lá, duro, rijo, e nem tem formato fálico que nem pinto duro.