segunda-feira, 1 de julho de 2013

Um dia


     Neste dia, quando acordou, encontrou a sua identidade bem diante de si. Tomou-a em comunhão e dançou, dançou, dançou com ela em seus braços, sozinho sob o teto ensolarado do seu quarto. Mas ao abrir a porta para sair, num assalto o vento de repente a descolou de sua pele como uma folha se desprende de uma árvore... Com um grito, correu atrás dela, tentando alcançá-la, prendê-la no espaço vazio que tinha sido deixado, embora não a enxergasse, não soubesse pra onde ela tinha ido. Perdido na névoa do seu fôlego e na chuva dos seus olhos, foi só ao parar que finalmente a reencontrou: o tempo todo ali, bem debaixo de seus pés, na poça de água, sorrindo mesmo enquanto chovia. 

domingo, 16 de junho de 2013

Vênus entrou em Câncer


     “Vênus entrou em Câncer”, o seu amigo lhe diz. Agora tudo faz sentido, você pensa, deitando-se na cama após acender um incenso e pensando que mão poderia repousar sobre o seu peito, ofegante, o seu peito, dizendo-lhe: Calma, eu tô aqui, e você dorme – até acordar num sobressalto porque alguém bate na porta do seu quarto. Você levanta, olha o incenso ainda aceso, Mal dormi, pensa, e abre a porta: é ele. Você o deixa entrar, fecha a porta ofegante, ele põe a mão no seu peito e diz: Calma, eu tô aqui, sim, é exatamente o que ele diz, mas ao deitarem-se na cama e tirarem a roupa, você sabe que depois será deixado nu, enquanto ele se vai vestido. E se lembrará então de que Vênus entrou em Câncer e acordará sobressaltado do pesadelo, depois cansado e triste, enrolando-se na coberta e sentindo seus próprios braços em torno do corpo. Mas enquanto sonha, finalmente desperto, verá os planetas transitarem pelas órbitas do seu eixo: seus olhos, dois sóis. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013


     Nas alturas de nossa embriaguez, ele continuava dizendo que todo mundo é louco, e eu lhe dizia que sim, sim – todo mundo é louco. As pessoas são incompreensíveis, nada é como esperamos que seja. E enquanto observávamos, preocupados demais com a qualidade do metal que encontraríamos sob a terra, no final nos vimos no meio de uma terra que nós mesmos devastamos. A festa tinha acabado então. Pois se todo mundo é louco, eu lhe dizia na volta, com os bolsos vazios, isso nos torna mais loucos ainda.

sábado, 17 de novembro de 2012

Things We Didn't See Coming


Para Nathália.


     “Porque forma”, ela pensou enquanto sugava do beck na boca, tentando se lembrar do que queria dizer no bar.
     “O quê?”, o estranho – tinha esquecido o nome dele – tinha perguntando então, mas agora suas mãos tiravam devagar o seu sutiã diante do espelho do seu quarto. E disse, alisando com o dedo todo o seu corpo com suas estrias e elevações e inesperados declives: “Você é linda, sabia?”.
     Mas ela apagou o beck rápido, empurrou-o sobre a cama e sentou-se em cima dele – porque forma, ela pensou – fazendo força sobre o seu corpo enquanto o volume crescia sob a cueca até ela–

(Ah, sim:
“Não tenho camisinha”, ele disse, sorrindo.
“Tenho pílula do dia seguinte”, ela ofegou.)

–segurá-lo entre os dedos e encaixá-lo todo dentro de si. Ele envolvia os seios na palma das mãos – porque forma, ela pensou – enquanto ela subia-descia-batia-sobe-desce-bate-sobe-desce-bate-de-re-pen-te: ___________.
     Porque forma, ela pensou, se desenroscando dos braços dele e indo até o banheiro sem fazer barulho, para não acordá-lo. Sentou-se na privada e pegou o livro que andava lendo – Things We Didn’t See Coming – enquanto o xixi escorria. Ao levantar-se, um papel que estava entre as páginas caiu no chão. Pegou, leu-o e riu: a porra dele rodava descarga abaixo junto com o xixi. Porque forma, ela pensou, é conteúdo sócio-histórico decantado.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

     Lembra-se quando éramos crianças e jogávamos bola no quintal de casa e a bola caía no quintal do vizinho? Era o fim se ela caísse, pois sabíamos que ele não devolveria. E costumávamos ficar sentados perto do muro do quintal até a noite chegar, imaginando a bola ainda lá, muito distante sob o sol que se punha no final da tarde, entre a grama mal cortada e sob a sombra de uma árvore, abandonada. Nunca mais a veríamos. E ainda que pedíssemos a mamãe pra pedir a ele que nos devolvesse, ela não ia, não ia. Sabia que ele não devolveria. Mas o maior problema hoje, eu vejo, era que toda vez que a bola lá caía ela nos surpreendia no dia seguinte com uma nova... Nos acostumamos com isso. E agora, que crescemos, a cada bola que jogamos no quintal do vizinho, sem querer ou não, não importa, esperamos no dia seguinte uma nova – mas ela não vem, não vem.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Pra variar: três poeminhas

Conta-gotas

"Três gotas antes de dormir."
Só.
     .
     . três?
              :
              :
              :
              :
              :
              :


Procrastinação

Queixo
                  na mão,
têmpora
                  no indica-dor.

Todo o peso do mundo
oscilando
                    sobre
             as
                    pálpebras.

"Bora tomar uma breja?"

E chuto-o para o

                         

                                    céu.


Ideologia

Ele _____ o nariz.
     (torceu?)
     (revirou?)
     (revolveu...?)

He twitched his nose like a rabbit's.

"Que cheiro é esse?", e então me perguntou.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Coi(n)to interrompido

     E então eu de repente percebi que quero escrever uma história de amor. Mas assim que essa ideia me assalta - e me deixa sem roupa em pele crua - e à espera de ser estuprado, talvez -, percebo que tem de ser um tipo muito específico de amor.        
    Deixemos o pau entrar até o gozo, então. Dois corpos. E toda vez que ele metia ficava confuso quando escutava: mete, Matt, mete, Matt, mete. E se perdia tentando adivinhar a tal ponto que em plena ereção em pleno cu de seu amante que implorava (ou reclamava? Ai, não conseguia dizer com certeza, era difícil e sem querer via-se confuso e) brochava.
 -  Mete, vai, Matt, vai, matt, Mete, Matt, matt, mete... O que aconteceu?    
    Cara engraçado, esse Mateus.