terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Rubrica para uma tragédia de amor


     (No meio de um lago de luz, ergue-se como rochedo uma cadeira escura de alto respaldo e, sobre ela, um estojo de violino. Estamos todos, todos sentados na plateia. Sedentos por um pouco de pathos, não ousamos perturbar aquelas águas – nenhum sussurro pode perturbá-las. Silêncio. O violinista se aproxima pela lateral do palco. Segura com delicadeza o estojo nas mãos, tão compenetrado no objeto que mal o vemos sentar-se. E antes de abri-lo acaricia com o toque de suas mãos a superfície polida, lisa de madeira... Ajusta-o a suas próprias curvas, com os dedos posicionados firmes, hábeis demais – como se o dominasse – e a primeira nota explode. Suspiros. O arco desliza por sua superfície tensa, ela vibra por fazê-lo deslizar. Se vibra é porque deslizo, se desliza é porque vibro. Os dedos, aqui, sinta!, dão a segurança de que você precisa. E entre tanto êxtase o violino não nota a chegada do clímax – nosso maior desejo. E a cada nota arrancada mais a boca se arrebenta em garganta, os nervos se partem, as veias explodem e nos tornamos o próprio violino, no meio de um lago de sangue, sobre uma cadeira escura de alto respaldo que se ergue como um rochedo, um corpo dilacerado, agonizando, chorando o pathos desperdiçado. Cortinas.)  

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