sexta-feira, 15 de novembro de 2013


      Desabou todo o seu peso sobre o banco, colocando a pesada mochila no colo. Agora podia descansar – por quanto tempo? – o quanto o tempo antes da chegada do trem lhe permitir, pensou, sentindo com a mão o zíper para ver se estava bem fechado. Pois a mochila estava tão cheia que tinha medo de que de repente ela tivesse se aberto enquanto corria – desviava-se – das buzinas, do sol incendiando o asfalto, dos membros rígidos lançados sempre adiante pelas ruas, inexoráveis... Suspirou com alívio. E viu ao seu lado um menininho, enrolando com as mãos um pião numa corda. Sua mãe, ao lado, observava o movimento ao redor, distraída. Então, quando terminou, endireitando-se, muito ereto e concentrado ele deu um impulso para trás com o braço e lançou ao chão da plataforma o brinquedo, que passou a girar em círculos, furioso. E agachou-se ao seu lado, os braços apoiados no joelho, as mãos unidas, olhando enquanto ele girava, girava, girava... Os lábios dele vibraram – um sorriso vitorioso abriu-se no rosto – o pião não parava – tinha conseguido. Mas quando o ruído sobre os trilhos chegou aos nossos ouvidos, antes mesmo que o trem parasse, sua mãe de repente o puxou pelos braços e correu com ele para o vagão para que pudessem entrar. E vimos, num último relance, entre pernas e braços, quando o trem já começava a deslizar mais uma vez, o pião abandonado na plataforma, ainda girando, girando, girando mesmo quando tudo já tinha se tornado escuro por trás da janela e nossos olhos depararam-se consigo mesmos ainda observando, em perplexa fixidez, o pião, com a certeza de que ele continuaria a girar por toda a eternidade – e que nunca mais nos seria permitido presenciar a sua queda.

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