quarta-feira, 27 de novembro de 2013



     As cortinas azuis do meu quarto agitavam-se com violência, por causa do vento. Pouca luz entrava por elas. E chovia forte... Será que ela tinha entrado para se proteger? Voando pelas ruas, em busca de um refúgio, tinha visto a janela – ou teria sido levado até ela? – e de repente, num golpe foi atingida pelos panos pesados da cortina – como se mata um inseto e nada mais – de repente. E foi assim que eu a encontrei, ao lado da minha cama ao acordar, caída. Mas uma asa ainda batia... 
     O que eu posso fazer por ela?, pensei. Tinha até pensado em procurar ajuda. Mas – como? Sairia na janela e pediria socorro? Ligaria para algum amigo perguntando o que poderia ser feito? “Tenho uma borboleta”, eu diria ao telefone, mas depois não saberia como continuar – uma borboleta que não morre? Ou que ainda vive? Eu não sabia. E nada fiz. Apenas tomei o cuidado de não pisar nela quando passasse, na esperança de que, cedo ou tarde, como as baratas e lagartixas, ela se recuperasse e saísse voando por aí mais uma vez. E passei o dia dividido entre os afazeres que a vida me exigia e a própria borboleta, cujo único afazer durante todo aquele dia foi bater a mesma asa, e batia cada vez menos a cada vez que eu voltava para ver – como quem nada quer, apenas de passagem – como ela estava. Claro, eu sei que eu poderia simplesmente ter pisado nela e acabado com o seu sofrimento. Mas que controle eu tenho sobre a morte?
     Quando a noite chegou, ao voltar para o meu quarto antes de dormir, percebi por fim que tinha acontecido. Julguei antes, no entanto, ter visto a asa ainda batendo – devagar, lenta, num último espasmo – mas era só o vento que a soprava, folha transparente e delicada. Morta. Finalmente morta. Se a deixasse ali e fosse dormir, pensei, sabia que a esqueceria no dia seguinte, ao acordar, e sem querer pisaria nela, arrancar-lhe-ia uma asa, destroçaria seu corpinho frágil... Não, eu precisava fazer alguma coisa. Tinha de enterrá-la, mas não sabia se seria capaz de fazê-lo. Pois mesmo ela estando ali, morta, permanecia em mim a sensação de que algum milagre ainda poderia acontecer. Foi então que resolvi guarda-la numa caixinha, mantê-la ali, esperar até que a situação se resolvesse. No dia seguinte, pensei, no dia seguinte eu saberia fazer alguma coisa. Mas tão logo fechei a tampa da caixinha, horrorizado vi a mim mesmo, dias, semanas, anos depois finalmente criando coragem para abri-la. E encontraria nada além de restos do que tinha sido antes – o quê? Pois tarde demais eu teria percebido que há muito tempo já não era. Peguei uma caneta e com letras garrafais escrevi sobre a tampa: “Deixe-me ir em paz”, e só então eu fui capaz enterrá-la.

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