quinta-feira, 24 de outubro de 2013



     Foi só ao sentir a cicatriz na pele que ele de repente percebeu, olhando por trás da camada de si mesmo, que a ferida já não existia  e que existira um corpo. Em que momento tinha sido deixado para trás?, perguntou-se, abrindo caminho pelo matagal que crescera e que ocultava as pegadas que ele não se lembrava de ter dado. Encontraria-o caído onde o deixara  se no meio ou no começo, não sabia , coberto de folhas e gravetos, que lentamente, como quem tira os cabelos da fronte — está morto? —, ele afastaria com as mãos para que o ar voltasse a soprar pelas narinas e os olhos se abrissem surpreendidos pela luz do sol. Era o indivíduo apenas; agora, seria mente-corpo, corpo-mente, mente que é corpo e corpo que é mente, mente corpórea e corpo mental, existindo como numa teia: se um fio do emaranhado bem tecido  fatalmente tecido  de mentes e corpos se rompesse, sabia que não haveria mais vida. Mas a essa altura, no entanto, encontrar-se-ia em algum ponto tão distante de onde tinha estado antes, num ponto tão além da trajetória, que o que era definir-se seria apenas uma questão de ser, aqui e agora, no corpo e nada mais... Em que momento o deixamos para trás?, perguntou-se, deslizando os dedos pela cicatriz.

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