sexta-feira, 13 de setembro de 2013

rascunho (I)


     Tirei da minha mochila meu caderninho de notas. Tinha acabado de chegar da minha cidade, no interior, e estava dentro do trem do metrô. Observava as pessoas ao meu redor – todas com os olhos cansados, sérias, recipientes da própria dor: era quarta-feira ainda. Vi um menino da minha idade, da sua blusa quadriculada – preta e cinza, preta e cinza, como os seus dias – o crachá gasto da empresa pendia sobre a barriga. Encostado, a cabeça no vidro, dormia. Uma mão metade no bolso, a outra segurando com abandono uma bolsa que tocava o chão do vagão. Li aflito: "Romantic", e um coração bordado logo embaixo... Cansado e solitário, estava indo para a casa depois do dia de trabalho. Não tinha se importado em tirar o crachá – pra quê? E por acaso ele sabia o que significava o que estava escrito na bolsa? E isso, também, importava de verdade? Não. A minha visão, na tentativa de revelá-lo, o ocultava: eu não sei como ele se sente. E quando o trem parou, ele esfregou os olhos cansados e levantou-se, sorrindo para outro alguém que o esperava na estação e abandonando o vagão em sua trajetória preta e cinza, preta e cinza, preta e cinza como os dias que se seguiriam para mim – pois como posso dizer "para ele"? – nesta cidade.

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