segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O último cigarro



Sustento ao infinito, para o ausente, o discurso de sua ausência; situação em suma inaudita; o outro está ausente como referente, presente como alocutário. Dessa distorção singular, nasce uma espécie de presente insustentável: fico acuado entre dois tempos, o tempo da referência e o tempo da alocução: você partiu (do que estou me queixando), você está aqui (já que me dirijo a você). Conheço então o que é o presente, este tempo difícil: um puro pedaço de angústia
– R. Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso.


     Eu me lembro de ter ficado muito tempo assim. Mas, na verdade, não deve ter sido mais que uma, no máximo duas, horas. Dando voltas em torno da sala, contornando a parede enquanto media com o olhar o espaço que tinha sido deixado. Havia uma luz forte, eu me lembro bem. Era aquele momento do fim de tarde em que o sol irrompe num último grito lançando com toda a força que ainda lhe resta nos pulmões seus raios, que agora escorriam em agonia sobre o piso branco conforme as sombras já avançavam. Talvez tenha sido por isso que eu o tenha notado ali... Só percebi o que era aquilo depois de ter ficado parado alguns momentos, encostado contra a parede, de frente pra janela, com o olhar se acostumando com a claridade até seus contornos contra o piso tornarem-se distintos para mim.
     “É o último”, ouvi de repente a sua voz. 
     Parecia há tanto tempo agora, pensei, sem perceber que começava a dar passos lentos em direção ao centro da sala. Ao me aproximar, o reconheci imediatamente: a mesma marca – ainda inteiro. Como eu não o tinha notado antes?
     “É o último”, ouvi de novo.
     Segurei-o com cuidado entre o indicador e o polegar, como se tivesse encontrado a prova de um crime. E não sabia o que fazer: apagaria seu rastro ou a guardaria como futura evidência a meu favor? Pois eu nunca mais tive a chance de vê-lo pela última vez. Sabe aquele olhar, aquele último olhar, que nos marca para sempre quando, ao lembrarmos da despedida, visualizamos a imagem em nossa mente? Eu não pude tê-lo. Quando fecho os olhos, nada me vem à mente a não ser a própria ausência – a saudade – a formação de um final que não chega – sem ponto final – reticências. E a cada fechar de olhos eu sei que, ao abri-los, a visão estará sempre incompleta.
     “É o último”, ele disse, lançando o maço vazio sobre a mesa.
     Sobre o cinzeiro, uma montanha de cinzas e cigarros empilhados, desperdiçados, amassados no ímpeto da fúria da finalização de algum argumento, enquanto decidíamos o que faríamos com aquilo que se tornava um espólio cada vez maior entre nós dois. Revezamos o último cigarro passando-o um para a mão do outro. E pensando bem, agora, não me lembro das vezes em que o traguei, só da sensação de segurá-lo por muito tempo, e ele também: raramente encostamos nossos lábios no filtro, como se quiséssemos prolongar a sua existência, sem, contudo, fumarmos. Pois nós dois sabíamos o que aconteceria depois: quando ele saísse pra comprar um maço novo, não voltaria – e eu, claro, decidiria parar de fumar.
     “Quanto tempo se passou?”, eu perguntei.
     E já não acreditava que ele pudesse voltar, quando a campainha tocou. Levantei-me, caminhando devagar até a porta. Era ele? Não podia acreditar, embora eu ainda pudesse sentir o cheiro de fumaça do nosso último cigarro pairando no ar da sala. Mas foi só ao abrir a porta que eu realmente percebi, no rosto tão jovem diante de mim, que eu ainda achava que iria revê-lo. Aquele momento entre nós dois tinha me marcado não como se fosse o último, mas como um ponto a ser mais uma vez contornado, que o tempo tinha transformado em reticências cujos próprios pontos, por sua vez, minuto a minuto, cada um deles, estivesse prenhe da eternidade das grandes esperas que sobrevivem porque temem o próprio fim...
     “Tem mais alguma coisa pra carregar?”
     “Não, aquele era o último”, respondi. Mas quando ele já se encontrava em frente ao elevador: “Espera, moço!”, e perguntei: “Tem fogo?”.
     Fechei a porta e me virei para a sala vazia. Caminhei devagar até o seu centro. A faixa de luz que dividia a sala recuava sobre o piso branco. Escorria pelo vão dos meus dedos. Os últimos suspiros escapavam pela janela aberta para a cidade estrelada. Até que, por fim, tudo se extinguiu na escuridão. Por fim. 

2 comentários:

  1. lindo, Thi. e muito bem desenvolvido.

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    1. obrigado, Aline! é muito gratificante pra mim saber que você gostou.

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