sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Epitáfio diário de um moribundo

(Texto experimental escrito em agosto de 2012.)


Me construa uma cidade, amor, 
e me coloque no último andar do prédio mais alto em um quarto pequeno,
 sozinho e isolado de todos.
Tranca a porta, por favor, dá duas voltas na fechadura.
Mas não joga a chave fora.



(I) Sonho

     A porta se escancara e vejo dois rostos de névoa dizerem, O gato cagou no copo? meu deus, meu deus, o gato cagou no copo!
o quê, gente? eu grito saltando do cobertor.
o gato cagou no copo e
  Acordo. Era só o som do gato miando enquanto estava sozinho na cozinha. Me aproximo e o puxo pra junto de mim, eu-gigante em frente ao gato que mia. 
que braços e mãos me agarram só porque eu mio? Como se miar fosse sintoma de uma necessidade e não uma forma de, como gato, miar? 
mas eu estou sozinho, sozinho. 
tire essas patas de mim, eu-gigante, que eu-gato não quero o querer
mas só 
                                    até                                                                   
                                                                          o meio.


(II) Um novo dia

     Um novo-mesmo dia de novo e eu-de-sempre me levanto pra arrancar sangue das minhas gengivas em frente ao eu-quem? que no espelho me olho sem querer ter acordado. Sangue, mais sangue, eu arranco
e cuspo.


(III) Um momento de lucidez

     O maior desafio é assumir um novo modo de ser porque a mudança é iminente. Como comprar cigarro, abrir o maço e calmamente jogar fora o lacre de plástico ainda que ele grude entre seus dedos
ainda estão suados?
e acender com o isqueiro da banca de jornais
como quem limpa o cu depois de cagar em público
porque você não tem fogo?

(IV) Odisseia

  O choro estridente de uma criança no metrô em mim 
mim-deitado no chão me debatendo
mas percebo chocado que estou caminhando pela calçada. 
Berrando, berrando,
 e todos passando e me olhando
louco louco louco
eles dizem 
mas eu
ainda entro no elevador e vou ao meu cubículo.
consigo sorrir? 
Tento e sai algo meio arranhado
um disco que se arranha na vitrola.
É um milagre, meu chefinho de trabalho diz,
sorrir?
q-que você tenha chegado c-c... 
fala, porra
é...
caralho, solta isso
c-cedo, né?
Eu sorrio.


(V) Ressaca

  Eu não tô muito bem hoje, física e psicologicamente.

Eu Acho Que Todo Mundo Devia Fazer Terapia, 
A Gente Fica Muito Ensimesmado Na Gente Mesmo,
Preso Em Nós Mesmos,
Sem Nos Abrir Para O Mundo.
[eu não sabia que p-p-ênis de gato ficava 
e-e-e-e-e-e-e-e-e-e
e-e-e-e-e-e
e-e-e-e-e-e
-reto.] 
Eu Faço Terapia Há Cinco Anos.

  Tô vendo.


(VI) Eu, aqui, ensimesmado 
(ou Pênis de gato fica ereto)

  Não me julgue se eu tô aqui falando em Odisseia e pensando em fazer uma referência a um Prufrock que em vez de não ousar interferir no universo está impregnado dele até os pelos do cu. Você quer brasilidade, você diz, você quer ser Mais-brasil, brasilidade-europeia, colonizado, é isso, porque não há, não há.
  Eu prefiro então me sentar no colo do Papai Noel e sentir o pau duro dele no meu bumbum sempre de hipoglós, agora, e depois me levantar pra rezar no presépio da minha tia-avó, que ainda (por cima) é natal. Não gosta, né? De ver o menino Jesus cercado de olhares que diziam que ele ia se foder por causa de uns bonequinhos que estavam ali em torno dele – a gente. E ele só queria ser um menino sem estar na cruz e sentar no colo do Papai Noel rebolando com ingenuidade no pau dele.


 (VII) Um adendo

  Não tente me entender, porque eu já me deixei de me fazer hermético.


(VIII) Sambando no ar?

  Posso até estar bêbado demais, mas a ambulância passou atrás de mim e eu senti a sua sirene gritar em meus ouvidos do esquerdo pro direito e eu ir junto. Eu ir junto longe de mim. Mas quando eu fui me deparei com os rostos dos paramédicos me olhando e dizendo Não vai viver, não vai viver, não vai dar tempo.
Tempo, mas tempo pra que se
Não, morre
Eu não sei morrer, me deixa morrer
Morre a não ser que você
que eu o quê?
Adianta tautologia a uma hora dessas, adianta? Adianta dizer se
eu, nada, eu que não quero ser
não sabe morrer?
Esse barulho de merda em meus ouvidos, prefiro morrer

  Mas vejo. Não. Eu não me vejo. A não ser o meu reflexo no vidro do ônibus sacolejando cheio de pecinhas que são todas eu. Gorda-maldita-que-ocupa-espaço. Gatinho-gostoso-que-não-me -encoxa. Criança-infernal-maldita-que-não-para-de-falar. Preto-filho-da-puta-que-não-desliga-essa-porra. Mas eis-me aqui tagarelando.


(IX) Depois do ponto

     Eu sempre durmo depois do
                                             sempre sempre além do
                                                                                  depois do
                                                                                           merda, meu
.
                                                                                                                     passou


(X) De volta ao lar

     E se cada ponto fosse algum do tecido da minha vida, esse mar feito de ondas que são cada uma um dia e que ao chegar em terra firme (será que chegam?) estouram num espasmo – eu teria que desfazer todos os pontos para tecer um novo tecido. E navegaria como quisesse nas ondas. Mas no dia seguinte sei que eu tenho que vestir de novo meu terno e que eu tenho que e eu tenho que. E então ao chegar em casa me a
   f
     o
  g
     o 
     no álcool pra suportar minha morte a.m.a.n.h.ã.

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