sexta-feira, 7 de junho de 2013

O lutador

     
     “Quase dois meses?”, ele perguntou, sentando-se enquanto eu abria o vinho.
     “Acho que sim – aceita?”, perguntei logo em seguida, indicando-lhe o copo. “Não tenho taça”, disse.
     “Não posso, amanhã eu vou acordar cedo.”
     Bebi um grande gole, e enchi mais. Na cozinha, ouvíamos o som que vinha do meu quarto. “Oh, kinder ways to your garden”, tocava.
     “Tá olhando o quê?”, ele perguntou.
     Eu estava olhando pra ele? Não tinha notado.
     “Você”, respondi, embora o que ele era eu nunca pude saber. Desviei meu olhar.
     “Vamos pra música?”, ele disse, levantando-se.
     Tão logo entramos no meu quarto e eu fechei a porta, suas mãos envolveram a minha cintura e puxaram-me para perto dele. E embora eu já tivesse tirado minha camisa, tive o cuidado de não lhe mostrar as marcas que tinham sido deixadas depois de cada partida. Pois lentamente, sim, mais lentamente que nossa disposição nos momentos da luta aconteceram os nocautes que levei. O último tinha sido há quase dois meses. Assim éramos nós dois: lutadores que se esforçavam em vão para desviar-se dos golpes um do outro. Ou talvez, pensando melhor agora, essa metáfora não fosse minha. Esportista, atlético, lembro bem quando ele tinha dito que gostava de lutar. E eu, claro, já na primeira vez mostrei-me disposto a ser imobilizado, nocauteado, deixado ainda no ringue – o tempo todo estive no ringue – até que ele voltasse mais uma vez.
     “Pode gozar, acho que não vou conseguir”, eu disse enquanto sentia todo o peso do seu corpo em cima do meu.
     “Gosto de gozar junto, eu espero”, ele respondeu.
     Mas eu não conseguia. E ele então parou. Tirou a camisinha e lançou-a sobre o chão.
     “Você ficou estranho do nada”, ele disse.
     E de repente eu me senti como um lutador que, em pleno round, recebe a notícia de que a luta tinha que ser cancelada. Sem saber o que fazer agora, via do lado de fora do ringue as luvas que ele mesmo tinha lançado ao chão.
     Depois que ele se despediu, voltei para o meu quarto pensando até quando, meu deus, até quando então eu teria que aguentar essas marcas no meu corpo. Será que um dia iriam embora?, perguntei-me, parando diante do espelho para checá-las. Tirei a camisa. Com a luz do quarto apagada, mal dava pra notar. Talvez ele não tenha notado então. Seria diferente, por exemplo, se a luz estivesse acesa – tateei a parede em busca do interruptor ao lado do espelho – ficariam tão nítidas aos seus olhos – encontrei e acendi – e me observei de cima a baixo, perplexo com o fato de que não havia marca nenhuma. Pois se nunca houve adversário, tampouco houve luta.
     Deitado na cama antes de dormir, senti que se ele voltasse novamente eu ainda estaria aqui, mas dessa vez a metáfora não seria só dele: eu também gosto de gozar junto.

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