terça-feira, 18 de junho de 2013

Ao vencedor as batatas?


     Caminhavam entre gritos, apitos, pulos, palmas e sorrisos. Muitos cartazes, oscilando entre o asfalto e os arranhas-céus, da realidade ao seu simulacro, dos vinte centavos à corrupção, temperados vez ou outra com vinagre. E as bandeiras também oscilavam: muitas, em verde e amarelo, embalavam esplendidamente os corpos daqueles que, sonâmbulos, caminhavam enquanto dormiam. Já outras carregavam o emblema do posicionamento crítico, ancorados no real, mas que lhes impingia o estigma diante dos olhos remelentos dos primeiros, que, embora sonhassem – e talvez justamente por isso –, desejavam controlar a narrativa do próprio sonho: egos embalsamados na bandeira que queriam impedir a todo custo que o inconsciente a rasgasse e o pesadelo, na figura do Outro, irrompesse.
     Caminhar por ali era caminhar sob o risco então de a qualquer momento ter o pé sugado num redemoinho – era preciso cautela. Mas ao passar diante dos espelhos de um prédio, por exemplo, ou mesmo subir no alto de uma árvore, e observar a quantidade de pessoas – quem são eles? – que estavam envolvidas no que estava acontecendo – o que está acontecendo? – era impossível não lançar as boias para longe e permitir-se mergulhar.
     E quando passávamos em frente aos carros da PM com que nos deparávamos pelo caminho, tão potencialmente repressores em seus uniformes inchados e com as mãos másculas sobre as armas, gritávamos: “Ah, que coincidência, sem polícia, não tem violência!”. E não notamos que na verdade eles estavam o tempo todo ali, ainda que mantivessem – ou talvez agora seja a memória cooptando as lembranças – o olhar distante e vago em algum ponto meio torto no horizonte da paisagem, o único a que eles deviam prestar atenção naquele momento. 
     Pois foi exatamente assim que no final nos vimos ser levados para campos vazios, vastos, risonhos e lindos campos floridos – pastos a serem ocupados por nós mesmos. Resta saber agora, gados confusos, se nos alimentaremos para o abate que longe daqui se tornará banquete – ao vencedor as batatas? – para aqueles que sentirão o gosto de espetar o garfo na massa abatida de carne mal passada, vendo o sangue transbordar, antes de mastigarem de boca aberta, pois estarão rindo entre si de boca cheia.

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