sábado, 13 de abril de 2013

     
     As pessoas eram estátuas de mármore que se erguiam para observá-lo do alto como gárgulas. Elas sabiam – e ele podia saber por isso, confirmar todos os seus medos e inseguranças para então poder esperar o cuidado – pois inevitável, fatal, incontornável ponto do que se chama “a minha personalidade”, pensava – do outro. Ainda que, é verdade, tal ponto era nada mais nada menos que– mas antes que soubesse ele o contornava inevitavelmente, para a sua própria fatalidade: dava voltas em torno dele, erguendo árvores e flores – tantas flores – laboriosamente, sim, em torno dele, estendendo tapetes de relva e amanhecendo ou anoitecendo conforme o sono desse outro, erguendo luas e sóis de papel presos num cabo de madeira que ele segurava – julgava – com muita discrição. Como uma criança brincando de faz-de-conta, tinha talento para tornar as coisas eternas: inventava estações, prolongando primaveras e invernos, fazendo chover a seu bel-prazer, para esconder as imperfeições do tempo em seu cenário.

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