sábado, 13 de abril de 2013

Labirinto

     
     Eu poderia dizer algo sobre aquela luz amarela, ali, brilhando no escuro. É só o que eu posso enxergar, aqui, sabe? Posso tentar me aproximar dela, roçar sua pele translúcida com alguma palavra qualquer, tal como: “eixo”. Pois os pelos de minha mão se arrepiam, apontando para o seu centro – é isto: “centro”. 
     Se me aproximo, me vejo, se me distancio, meu corpo se esfacela no escuro e passo a ser apenas uma presença no negro interior desta página em branco – pois quanto mais se roça, mais escura fica. É sério, eu já fiz a experiência. É o que esconde toda página em branco. E de repente percebo que já está acontecendo, claro. É assim: se resolvo me calar, morri; se começo a escrever, vejo a luz amarela, ali, brilhando no escuro. Há sempre dois caminhos: ou toco, e alguma coisa acontece, ou me distancio, andando por algum caminho qualquer, pois é constante, aqui, correntes de ar que indicam na escuridão que posso seguir para qualquer lado que quiser. Mas sempre tão frias, as correntes, que não me afasto muito da luz, embora, é claro, sem nunca tocá-la. Apenas roço: “eixo”, “centro”, como numa espécie de limbo – é isto: “limbo”.  
     É engraçado. Sempre, nunca, agora, de repente, percebo que aqui é sempre ou nunca a primeira e a última vez. Pois as coisas acontecem aqui também. Sinto agora uma forma esférica em minhas mãos, mas nunca ousei aproximá-la da luz para saber o que é. No escuro, deslizo a pontinha do indicador por sua superfície e sinto-a um tanto fria; aperto-a então fechando as duas mãos em torno dela, até ficar bem quentinha; cheiro, e isso me dá desejo; mordo um pedaço – que gosto tem? – continuo comendo – parece familiar – devoro até o caroço como nunca. É sempre assim. É o que me faz continuar aqui. De repente, sinto que estou comendo escondido, embora esteja aqui há tanto tempo que sei que não tem ninguém de quem esconder – mas tenho medo e apenas roço: “eixo”, “centro”, “limbo”, sozinho, falando comigo mesmo – é isto: “comigo”.
     Talvez seja isso que me dê medo. A luz, ali, por exemplo. Quanto mais me aproximo, mais me vejo, daí que, estando comigo, sei exatamente o que estou querendo dizer enquanto digo. Caso contrário, sai isso. E então me canso e, tudo devidamente devorado e roçado, eixo-centro-limbo-comigo, finalmente, paro. Mas não acaba aqui: de repente sei por que paro: não havia outra saída a não ser tocar a luz, ali, brilhando no escuro. Mas como saber, se eu apenas roço? – é isto: eu apenas roço.
     Agora assim, depois de tudo dito, acho que eu entendo. Sei o que eu tenho que fazer. Desarmado de palavras, toco a luz – é isto.

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