quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Óculos novos


     Enquanto caminhava teve a sensação de que nunca enxergara com tanta clareza. Não eram apenas os óculos novos (antes, com o antigo, tinha tido uma fase de cegueira, e não só porque estava velho e quebrado). Não, ele olhava agora para os rostos das pessoas na Avenida Paulista como se não houvesse problema em olhar. Em estar ali, apenas. Estar de fato ali.
     E de repente viu um rosto conhecido  era fulano, ex do ex do seu amigo, não era?  e continuou pensando que talvez contaria a ele hoje que o viu. Mas alguns passos depois, viu-o mais uma vez e, antes que sucumbisse pensando que o poder desses acasos poderia enlouquecer alguém  tô ficando louco, louco, louco – mas agora era ele, tinha certeza –, percebeu que na verdade a clareza do seu olhar naquele momento era tanta que todos os rostos  o rapaz, a moça, o velho  lhe eram familiares. Não, não era, também, porque passava por ali há alguns anos já, no mesmo horário, e talvez já tivesse visto todos, todos, todos os rostos antes. Não: era porque o outro sempre existiu, e só agora ele parecia vê-lo pela primeira vez. 
     Tirou os óculos e esfregou as lentes no pano de sua camisa para que pudesse ver melhor. 

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