quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Aí vem chuva de novo


Escrever é viver, simplesmente,
sob a condição de se acreditar não ter vivido.
(César Aira)

Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.
(Clarice Lispector)


     Sexta-feira. O céu estava pesado de nuvens, e toda a multidão andava apressada de volta para a casa para que pudesse desaguar todo o peso da semana. Um rosto sorrindo ao telefone de repente revela toda aquela alegria patética das pessoas ao se verem livres por dois míseros dias. E ali, entre todas elas, ele andava rápido porque a chuva logo iria cair, e procurava desesperado um bar para que ele, também ele, pudesse desaguar. Passou sob um toldo, olhou pela vidraça como se visse o seu próprio reflexo – era bonito – e não me viu.  
     Estou aqui sentado na mesa com um copo – o quinto, o sexto? –, desaguando também. Solitário como todas as pessoas na cidade. Todas esperando a brecha do final de semana para viverem de alguma forma, sentirem, cada uma a seu modo, o que é viver livremente. Importa, então, o que elas vão fazer, contanto que sintam que estão vivendo? Eu, também, por trás do vidro, sinto que estou vivendo. Como alguém fechado num quarto escuro e sem janelas que de repente sente o vento entrar por baixo da porta e encosta a boca pra sugar – sugar, sugar, sugar – o ar que continha toda a vida e que era o suficiente para que muitas outras irrompessem dentro dele – em mim – e eu pudesse, então, viver. (Já me disseram que sou melodramático. Mas às vezes é preciso saber apreciar a verdade do clichê. Não?)
     Mas estou aqui também em busca de material. E agora percebo como sou invasivo na vida das pessoas, um parasita que precisa dos outros para poder existir. Pois o fato é que anda cada vez mais frequente, para onde quer que eu vá, de repente pensar num novo conto, e muitas vezes, quando alguém conta alguma coisa pra mim ou de repente eu vejo – pois tinha dia ou outro uma epifania, coitado – algo meio amorfo na ameaça de se solidificar, como uma substância ainda sem forma, era ele quem corria até ela com sua baqueta para que de repente algo como a Sonata Patética de um Beethoven irrompesse – tomasse forma – bastasse apenas tocá-la. Pois era um escritor – coitado! – um es-cri-tor. Me respeita! Respeita meu espaço! Este caderninho. 

     De repente, a porta do bar se abriu. Era ele. Vi-o se debruçar sobre o balcão, vi seu pau sob a calça roçar no banquinho junto ao balcão, a bunda levemente inclinada para trás, a mão no queixo enquanto olhava o cardápio para ver o que pediria, o indicador na boca. O que pediria? Uma cerveja, tinha cara de quem pediria uma cerveja... E pediu. Abriu com um só movimento – tinha mãos fortes – e jogou a tampinha no lixinho ao lado. Olha pra mim. Olha pra mim. Eu estou aqui escrevendo e mexo displicente a caneta como se pensasse, olhando para a rua, mas com o canto dos meus olhos acompanho os seus movimentos e torço, torço para que me veja: um escritor sentado sozinho – escrevendo, é claro – num boteco numa sexta-feira. 
      Será que me pareço com um escritor, pensei sem querer. Vestia o terno com que ia trabalhar. Não, não pareço... Mas hoje, afinal, o que é se parecer com um escritor? O que é se parecer com qualquer coisa? E quanto a escrever, anda cada vez mais difícil encontrar uma folha em branco – ou seria uma caneta que funciona?
     Posso me sentar com você?, ele disse. O quê?, eu perguntei. Ele me via, agora. E se sentou. É que tá chovendo lá fora. O que tá escrevendo aí? Nada, respondi. Nada não pode ser, deixa eu ver. Não, não. Só um pouco. 
     Ele pegou o caderno, mas não viu o que eu escrevia. Fechou-o, analisou a capa, e abriu a primeira página. Eu ia gritar Não!, mas acabei disfarçando a minha ansiedade olhando pra fora. A rua, os ônibus, as pessoas patéticas correndo na chuva, pensei, mas quando vi meu reflexo na vidraça me assustei porque estava sorrindo também. 
     Here comes the rain again, o rádio tocou.
     Mas ele de repente começou a rir alto na mesa. O que foi?, eu perguntei. Você é romântico?, sua boca se contraiu numa expressão que não combinava com ele. Por quê?, eu perguntei. Ah, eu gosto. Hum. O que você leu aí? Isso, ele falou em voz alta e começou:
     
     Se eu decidir continuar seguindo estas linhas, aqui, vou adivinhar nosso destino? Borrão aguado sobre as letras, palavras espumantes sobre o papel – mas tão rápidas elas diluem depois da queda! E a caneta, exausta, vai-se embora pelos vãos dos meus dedos. Porque por mais que eu esprema, não adianta: desta tinta eu não quero o seu amor.

     Foi pra alguém em especial?, porque era óbvio que ele ia perguntar isso. Não. Quer dizer, foi. Não sei. Ah. Eu gostei, achei bonito, mas. Mas o quê? Falta alguma coisa. Você já pensou em publicar? Como você sabe que eu não publiquei? Eu sei, ele disse. Você quer ser lido, né. O mais difícil pra um escritor é assumir que quer ser lido, eu disse solene, e tomei um gole do copo. Olhei pela vidraça.
     Here comes the rain again, cantarolei sem querer. Ficou na cabeça. Hein? É um clássico dos 80, expliquei. Saiu alguma coisa hoje aí?, e indicou com a cabeça o caderninho. Um pouco, respondi. Já publicou pra revista, jornal? E o que você faz da vida? Você tá de terno e gravata agora, trabalha onde? Ah, não, não fala, vai estragar – quero manter um mistério. Para de projetar, você nem me conhece, disse, sentindo um mal-estar. Bebi demais, falei. Olha, a chuva pode piorar e a gente vai ficar preso aqui. Mas a gente vai se encharcar. Já tô encharcado, e chamei o garçom. Não queria que acabasse. Mas não precisa acabar agora, me ouço de repente dizendo antes de ouvir, ao olhar para a vidraça que com a escuridão lá de fora agora refletia todo o bar: Já acabou.
     À porta, de repente esbarrei em alguém que entrava. 
     “Desculpa!”
     “Ai... Tudo bem... Ah, aí no chão, moço, é seu, né? Acho que caiu.”
     Era ele. Peguei rápido o caderninho aos seus pés.
     “Nossa, obrigado. Não tinha visto.”
     E ele entrou. Mas eu já estava encharcado. E me juntei à multidão, caminhando apressado para voltar para casa. Ao passar pela lata de lixo mais próxima, deslizei discretamente o caderninho das mãos. Olhei para o céu. Aí vem chuva de novo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário