domingo, 16 de dezembro de 2012

∞/∞/2012



     Encontrei-o fazendo acrobacias por toda a cidade, saltando entre os carros e pegando atalhos que seu próprio corpo elástico tornava-lhe possíveis, entre as montanhas e seus picos de concreto. Ele era rápido em seus movimentos; no entanto, depois de deixar todos surpresos ou frustrados por não conseguirem alcançá-lo, por um momento ­– antes de voltar a fazer suas acrobacias – ele parava. E no espelho dos seus olhos, eu vi que agora ele esperava os aplausos. “Porque a vida”, ele dizia, “é um grande circo”.
     No entanto, logo percebi que ele não podia dizer o segredo de suas acrobacias. Quando interrogado, ele se desviava, flexionava-se, sufixava-se ou prefixava-se como corpo-verbo que não podia ser revelado. E eu buscava a revelação. Assim, quando minha rosa branca já agonizava, sem redoma e em suas derradeiras pétalas, gritei para que ele segurasse em minhas mãos para levá-lo com ele. Mas num último salto, que eu sabia que inevitavelmente viria quando percebi que me colocava como trampolim, ele simplesmente se foi, sem sufixo, sem prefixo: radical.
     Não, eu não era um acrobata. Cheguei em casa e sentei-me na cama. Acendi um, dois, três, quatro, todo um maço de cigarros querendo então sufocá-la para que ela morresse. Já que a morte é inevitável, eu pensei com ódio, eu posso matá-la agora. E então eu mergulhei minhas mãos em minhas entranhas, a princípio conseguindo fisgar apenas pedaços, pétalas aqui e ali, até que por fim, imerso até os ombros, senti entre os dedos o caule e com toda a minha força a arranquei de uma só vez, revolvendo toda a terra. E sangrando e vazio, deitei-me para dormir.
     No dia seguinte, abri os olhos devagar, sem me mover. Esperei, ouvindo a minha própria respiração hesitante. Era inacreditável que ela não mais estivesse ali. Então, com muito cuidado resolvi friccionar devagar as extremidades do meu corpo... As pétalas farfalharam num suspiro. E quando respirei fundo, a senti dentro do meu peito, bem fundo, no fundo, como se respirasse também. Levantei-me com violência, mas tive que me segurar na parede, pois meu caule se estirou como se a qualquer momento fosse arrebentar.
     Por dias, semanas, meses, eu tirava alguns momentos do dia para enfiar minha mão no fundo e arrancar suas pétalas até chegar ao seu caule. E a cada pétala, meu corpo vibrava até por fim ejacular gêiser de sangue, com o caule entre os dentes.
     Mas na manhã seguinte ela estava em flor mais uma vez.

Um comentário:

  1. Cada vez mais aflorada a poesia da tua prosa. Flor desabrochando é uma metáfora óbvia para o seu talento.

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