sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Dois passarinhos


Ao som de Little Joy. 
E com agradecimentos a Bruna e Alan.


     Tinha caído uma tempestade tão forte que, entre as folhas de um galho de uma árvore qualquer na cidade, os passarinhos sacudiam as suas penas para se secarem dentro de seu ninho. Uma cachoeira de repente deslizou de alguma folha acima deles e se espatifou sobre suas cabeças, e tiveram que eriçar suas penas mais uma vez como que sincronizados. E o ninho que tinham construído com tanto cuidado para chocarem seus ovos agora tinha buracos por todos os lados. Felizmente, no entanto, os ovos estavam intactos. Protegeram-nos com seus corpos trêmulos durante toda a tempestade.
     De repente, um vento frio entrou pelos buracos do ninho quando uma janela, em cujo vidro o galho da árvore roçava, se abriu. Um jovem olhou para o céu ainda coberto de nuvens depois da tempestade. Voltou-se para trás de si, onde outro tinha uma bandeja sobre o colo, sentado numa cama de casal. Quase como um convalescente, ele lentamente levou a xícara aos lábios. E o primeiro, com um suspiro, sentou-se ao seu lado e pegou um pedaço de bolo da bandeja com as mãos, sem mordê-lo.
     Estavam cansados. Tinham dormido mal na noite passada, depois de ficarem horas deitados em silêncio, fitando o teto que se tornava cada vez mais nítido na escuridão. E as letras em vermelho e muito grandes flutuavam diante deles: 

FORA VIADOS – APARTAMENTO 101

     Nem desceram do elevador. Indignados, apertaram o botão para subir ao andar do síndico para que ele tomasse imediatamente alguma providência para descobrir quem foi. Mas com a mão na porta, sem abri-la totalmente, ele levantou os ombros e sorriu como se dissesse debochado: “Eu avisei”. Mas na verdade ele disse que não tinha nada que pudesse fazer. O elevador não tinha câmeras. Mas isso não se repetiria. Ele sentia muito. Boa noite.
     Quando entraram em casa, a sós, conversaram e tomaram a decisão de denunciar o ato. Mas conforme a noite avançava, cada um em sua cabeça, decidiram em silêncio esquecer aquilo. É que não queriam arrumar encrenca com os vizinhos, eram novos no prédio. Na verdade, pensaram, era exatamente aquilo que eles desejavam que fizessem. Não, não dariam esse gosto a eles. 
     Tinham se mudado há menos de um mês. Estavam juntos há cinco anos já, se conheciam muito bem, e ficaram empolgados com a ideia de juntos dividirem um lar. Não, é claro, que acreditassem no amor ideal, em almas gêmeas. De fato, assim que se apaixonaram logo perceberam que o amor como tinha sido apresentado para eles não daria certo. Ambos eram independentes demais, livres demais para dependerem um do outro – e, ainda assim, amavam-se e precisavam um do outro em suas vidas. 
     Bruno era um artista plástico. Forrava as paredes da casa com seus quadros, estes pintados especialmente para ela com o que tinha de mais seu, embora soubesse que jamais conseguiria dar tudo o que desejava, assim como recebia por seus quadros menos do que achava que merecia. Rodrigo, por sua vez, era um engenheiro: tinha a mente prática, cuidava para que toda a base do lar não fosse construída num terreno traiçoeiro, e muitas vezes era ele quem achava alguma saliência ou uma parte mais frágil no terreno e, acenando para Bruno, batia nela com o pé e dizia: “Aqui, viu?”. Talvez porque Rodrigo fosse um pouco mais velho, Bruno pensava, ou quem sabe menos emotivo, embora achasse que ele sempre acertava nas molduras que fazia para os seus quadros.
     E ali estavam os dois agora. Tinham decidido não sair de casa naquele dia. Rodrigo decidiu preparar o café da manhã para comerem juntos na cama – há tanto tempo não fazia isso! –, abrindo a janela para acordar Bruno, que costumava dormir demais. E o dia parecia mesmo ideal para ficar em casa, sentiram, o cheiro de umidade e folhas molhadas entrando com o vento pela janela do quarto, enquanto afogavam o biscoito no café com leite antes de levá-lo um até a boca do outro. Pois acordaram amorosos naquele dia, desejosos de exercer toda a liberdade que podiam dentro espaço que tinham construído para si mesmos.
     “A gente devia cozinhar hoje”, Rodrigo disse.
     “Hum... Acho uma boa”, respondeu Bruno, com a boca cheia.
     “A gente tem o que em casa?”
     “Nada, eu acho... Tem que sair pra comprar.”
     Os dois não se olharam até colocarem no rosto um sorriso que acabou saindo como um par de asas que se esforçava em vão para levantar voo.
     “Ah, tem um lugar que eu ouvi dizer que é ótimo. A gente podia pedir.”
     “É, acho que eu também tô com preguiça de cozinhar.”
     Continuaram comendo em silêncio, até que Rodrigo de repente se lembrou que tinham marcado de ir ao cinema com o pessoal hoje. Bruno sem querer soltou um suspiro, olhando pela janela, e apenas disse: “O tempo hoje tá feio”.
     “É, né? Melhor a gente ficar em casa. Vamos marcar pra outro dia.”
     Sentindo então uma inquietação, uma vontade de sacudir não sabia o quê, depois que tomou o último gole da sua xícara Rodrigo disse:
     “Você tá quieto.”
     “Tô pensando”, Bruno respondeu, observando na parede diante dele o quadro que tinha pintado há pouco tempo atrás.
     “Hum”, Rodrigo fez apenas, temendo o que poderia ser. Mas sem que perguntasse, Bruno respondeu:
     “Eu gostei bastante dessa sua moldura.”
     Rodrigo esperou para ver aonde ele ia chegar. Não agora, pensou. Mas o seu olhar fez Bruno pensar por que ele às vezes o olhava como se de repente ele estivesse prestes a: “Lembra aquela vez que eu disse que só pintar não adiantava? Parece que eu nunca consigo expressar tudo. Foi isso que eu tentei, nesse quadro. E daí também pensei em você enquanto eu fazia, não só como observador. Queria que você participasse, entendeu? Mas acho que eu não consegui”.
     Rodrigo observou a moldura que tinha feito. Lembrou-se que queria que ela se diluísse na pintura, não se impusesse. E de repente se surpreendeu com o tom de agressividade em sua voz quando sem querer respondeu: “Mas você por acaso me perguntou o que eu achei?”.
     “Não...”, Bruno respondeu surpreso. É verdade, ele não tinha perguntado. “Fiquei esperando você dizer.”
     Depois disso, inevitavelmente os dois ficaram em silêncio mais uma vez, observando o quadro na parede... Mas Rodrigo não sabia o que era aquilo que Bruno tinha pintado. De fato, quantas vezes, ao se deparar com alguma pintura sua, não conseguia entender o que ele quis dizer? E quando ele finalizava uma nova, Rodrigo se aproximava e o via sentado diante dela, até receber um olhar furtivo e trêmulo dele, cujo peso ainda podia sentir como se um ponto de interrogação de repente tivesse sido enganchado em seu pescoço. E mesmo se ele tivesse dito: “Gostei”, Bruno ouvia apenas um murmúrio qualquer abafado pela porta que ele tinha acabado de fechar atrás de si, sendo atacado de repente por cadeiras, mesas, sofás e tapetes imóveis sobre o piso frio do chão da sala. “Precisamos mudar a disposição dos móveis amanhã”, ele então suspirava. Pois nem mesmo ele sabia exatamente o que queria dizer com o que pintava.
     Sem que percebessem, a mão de um apalpava sobre o lençol da cama em busca da mão do outro, e quando se encontraram tocaram-se de leve na ponta dos dedos. Olharam-se surpresos.
     “Que filme é mesmo?”, Bruno perguntou.
     “Não lembro, mas”, Rodrigo vacilou.
     “Você quer ir?”
     “Você quer?”
     “Vamos?”
     “Vamos.” 
     E os dois beijaram-se gentilmente por um tempo, até Rodrigo se levantar para fechar as cortinas da janela, enquanto Bruno depositava a bandeja do café da manhã ao lado da cama. Uma rajada de vento fez a cortina inflar e, num último relance, dois pés se entrelaçaram antes que ela voltasse a repousar num suspiro de alívio. 
     No galho à janela, os passarinhos cantavam pelos raios de sol que penetravam entre as folhas, reconstruindo seu ninho para esperar os ovos finalmente chocarem, em uma árvore qualquer na cidade.  

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