quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dentes brancos


Com agradecimentos a César e Maurício.


     Isso daqui não é um conto. Quer dizer, é, mas não é pra ser. Porque ele é real. Mas é difícil nesse espaço em que o coloco agora mostrá-lo de modo que não sejam meus dedos sobre a tecla que lhe deem vida, mas que a vida irradie dele mesmo – sem meus holofotes em cima, nem através. Eu aqui não quero mais estar, é isso o que quero deixar claro antes de me calar.

*

      Num dia quente e abafado, daqueles dias secos na cidade em que o nariz escorre e a garganta resseca – sem que o líquido viscoso do nariz entre pela boca para lubrificar a garganta – ele endurece no meio do caminho –, a única maneira seria deixar o pau entrar goela abaixo e a porra, ainda quente, lubrificar. Porque na verdade não chovia há dias. E porque na verdade isso era tudo o que tipos como ele recebiam dia a dia nas ruas – pau na boca como se fosse o cu, empurrando a merda para baixo a tal ponto que, sufocados, já não pudessem mais falar. E a merda tinha que descer em silêncio – em algum canto escuro da cidade, em suas entranhas mais podres –, a não ser por convulsões do cu que vibrava ruidoso.
     Mas com ele era diferente. Todos os outros faziam como se aquilo lhes fosse merecido, como se a sociedade os tivesse excluído porque não cumpriram a expectativa, não fizeram o que tinha e podia ser feito. Mas não ele. De lugar nenhum, eles mudaram-se para um apartamento em dezenas, pouco a pouco chegando, e sem se saber de onde nem como ele de repente já estava ali. Todos se surpreenderam quando viram, ao lado de seus trapos imundos, um copinho de plástico e uma escova de dente muito limpos, como um altar se elevando puro em meio a tanta sujeira. E ele não levava pau na boca porque, quando a cabeça ameaçava uma investida babando como um cão raivoso, no meio de seu rosto sujo abria-se um sorriso de canto a canto mostrando dentes inesperadamente brancos.
     Não demorou muito tempo para a polícia bater no prédio para retirá-los todos de lá, dos três andares que ocupavam. Mas quando ele surgiu à porta, emporcalhado, a barba como uma teia de aranha em que tudo grudava e um umbigo sujo como um buraco negro na barriga saltada para fora do trapo rasgado, seus dentes brancos brilharam. Os policiais o olharam atordoados, ficaram de pau mole, enfiaram-no de volta às calças e foram embora impotentes com a sensação de terem sido agredidos.
     Ele logo arrumou um canto na calçada para ficar sentado todos os dias, com uma caixa de papelão ao seu lado para que lhe dessem esmolas. Uma senhora muito bem vestida e elegante passou, olhou-o e, sentindo pena, tirou de sua bolsinha uma moeda. Ele mostrou seus dentes brancos. Quando os viu, ela se sentiu muito escandalizada e de sua bolsa retirou mais uma moeda. E os dentes brancos brilharam mais uma vez. E ela então lhe deu mais uma. E os dentes brancos.
     As mãos da senhora tremiam, horrorizada com aqueles dentes brancos que a cada moeda que ela dava insistiam no rosto encardido. E todo mundo que passou ali, quando o viu, também fez o mesmo. Mas com um sorriso os dentes brancos concordavam apenas. As pessoas despejaram celulares, carteiras inteiras, bolsas com tudo dentro, apavoradas com os dentes que tinham resolvido nunca mais sair dali. Algumas em prantos, outras tremendo e aos berros, foram embora para a casa desesperadas.
     Apesar disso, ninguém do prédio sabia o que ele fazia com o que ganhava. Isso permaneceu um mistério. No dia seguinte, lá estava ele mais uma vez na calçada, a mesma caixa de papelão ao seu lado. E os dentes brancos.
     Em poucos dias ele se tornou conhecido em toda a cidade. Por onde caminhava, os dentes brancos flutuavam em seu rosto sujo com tal obscenidade que todos que o viam não conseguiam deixar de virar o rosto. Mas já era tarde demais: os dentes brancos tinham se fixado em suas retinas. 
     Ao ligarem a TV de suas casas, viam a apresentadora do telejornal gritar obscenidades e reclamar da sua vida sexual e mandar seu chefe pra puta-que-o-pariu, sem perceber em seu furor que o apresentador ao seu lado chupava seus peitos. Os dentes brancos pairando no vídeo atrás deles. 
     E então, mães de repente começaram a esfaquear, enforcar, jogar do alto de seus apartamentos os seus filhos para que não vivessem neste mundo. E se suicidavam em seguida. Os homens rangiam os dentes e como cães passaram a andar de quatro, brigando entre si, com arranhões e mordidas, pela merda que tinham feito nas praças, shoppings, restaurantes e sarjetas. 
     E cheios de culpa, freiras vinham esfregar a buceta na sua cara implorando pelo amor da Virgem Maria para serem chupadas e fodidas por ele, enquanto padres chegavam de pau duro erguendo as suas batinas e se posicionando de quatro com o cu piscando por perdão. E até as prostitutas chegavam chorando para adorar os dentes brancos e dar a ele tudo o que tinham conseguido na noite anterior. 
     “Dentes-brancos-dentes-brancos-dentes-brancos...”, todos repetiam como um refrão em meio ao vômito, à merda, às lágrimas e ao sangue de seus corpos.
     Carros abandonados no meio da rua, corpos cruzando-se como animais, casas abandonadas ou em chamas, lojas saqueadas por todos os lados por andarilhos que não conseguiam entender como as coisas tinham ficado assim. Quando perguntaram a ele, ouviram-no pela primeira vez falar, cada sílaba estalando como ossos que se moviam a custo depois de muito tempo em sono profundo: “Eles esqueceram seu papel”, e nunca mais disse palavra.
     Finalmente um dia, com ternos e gravatas, arrancaram-no do seu prédio e o algemaram. Os olhos injetados e a boca espumando, gritavam e berravam enquanto cuspiam nele. E ergueram os punhos e fizeram-no soltar sangue pela boca. Mas ele sorria, os dentes,       . E ao vê-lo na rua caminhando entre socos e chutes de homens engravatados, todos os outros de repente levantaram-se sobre duas pernas e juntaram-se a eles, fazendo um corredor conforme ele caminhava entre a multidão feroz, todos os sobreviventes, mais lúcidos do que nunca em sua loucura. Mas ele ainda sorria, os dentes,      . Levaram-no até uma praça, milhares em torno dele, até que ele finalmente desmoronou, com uma lágrima dançando por um momento no canto dos olhos antes perder-se entre a massa de carne informe que tinha sido seu rosto. Mas os dentes      

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