sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As flores


    E então ela se viu em um lindo jardim colorido por muitas flores de todas as cores, margaridas, gerânios, violetas, rosas, girassóis, crisântemos, orquídeas, nastúrcios. Como sabia o nome de todas elas? Apenas sabia. E enquanto entrava a caminhar entre elas, uma brisa suave fazia-as se inclinar gentilmente para o lado e roçar em suas pernas. E agora elas não estavam sussurrando? Estavam, por todos os lados, doces sussurros entre si, uma linguagem que ela não podia entender. O segredo do que as fazia tão belas, tão encantadoras. Belas, suas pétalas recebiam o calor do sol e brilhavam vistosas, em flor. E cada chuva era sentida por elas como uma benção – não lavava nada, não havia nada para ser lavado. E cada gota que, depois que o sol surgia, pendia cristalina delas, para logo cair sobre a terra, lentas, delicadas, como lágrimas – se de tristeza ou alegria, não importava – era belo, belo, e toda aquela beleza garantia algo a elas, embora ela mesma não soubesse ao certo o quê.
     O que ela estava fazendo ali? Como tinha ido parar ali? O jardim se estendia imenso por todos os lados, e já não podia dizer como exatamente tinha chegado lá. Mas tanto fazia. Lá estava, e isso é só o que se deve saber. Sem perguntas, sem perguntas. As coisas são assim.
    Ela deitou-se, sentindo as flores ao seu redor acariciarem todo o seu corpo, altas, cercando-a como paredes que, apesar de frágeis, ninguém ousaria transpor. Mas acima o céu estava azul, ela podia vê-lo, azul e distante, e ainda assim tão perto, tão perto... Se esticasse as mãos, será que o alcançaria?
    Mas não podia. Gentilmente, tão gentilmente com seus caules elas envolveram o seu pulso enquanto erguia a mão, e trouxeram-na para a terra mais uma vez. E ainda mais gentilmente ela sentiu o toque de seus caules em torno de seus braços e pernas, crescendo delicadas por todo o seu corpo. E se esperasse, conheceria o seu segredo...
     Mas o céu ainda estava azul, tão azul.
    O que elas estavam sussurrando? Agora assim, tão próxima, ela podia ouvir fiapos de frases inteligíveis, sussurros quase compreensíveis, quase audíveis, quase reais... Cercada por todas elas, que agora se debruçavam sobre si, como rostos de curiosos que olham de cima para uma estranha que acabara de desmaiar na rua, e você é essa estranha. E como tal, levante-se e finja que não foi nada, que foi apenas um momento de fraqueza, que está tudo, tudo muito bem – mas já era tarde.  As flores faziam parte dela, agora.  
      Flores demais, flores demais, ela repetia, flores demais... 
    De fato, havia tantas flores que ela também criou consciência de ser uma flor. A princípio sentiu seus braços moles como folhas, seus cabelos abrirem-se como pétalas, e parecia que seu pescoço e tronco e pernas se esticavam enrijecidos e formavam um caule. Então, ela já não podia se mexer. E passou a vida curta que lhe restava a vegetar, dependendo que a aguassem para manter a sua beleza. 

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