sexta-feira, 20 de julho de 2012

O término

Com agradecimentos a Nathália, Danilo e Alan.

     Você é uma ferida não cicatrizada. Sou melodramático e clichê, né? É o que você vai dizer, você sempre disse isso. Mas você é mesmo essa ferida, e não só em mim. É uma ferida em carne viva que caminha pela superfície do mundo, mas que está enraizada nele e foi por ele criada. E é por isso que eu te amo.
    
     Eu preciso me sentir completo. Sei que sou, mas não o sinto. Preciso perceber que sou completo, que tenho minha própria identidade, por mim mesmo. Sem precisar de um outro pra suprir essa falta que sinto em mim. E estar aqui com você é estar num santuário, numa bolha. E foi assim por muito tempo, por culpa minha.

      Não, não foi culpa sua. Quando nos conhecemos, eu vi no seu corpo frágil e magro de menino a iminência de um rompimento que com o meu, de homem robusto e maduro, pretendia envolver, proteger, e evitar. Quando você falava, sentia no timbre da sua voz o tremor da insegurança de quem não está pronto pra enfrentar a vida sozinho.

     – Eu vou cuidar de você.

     E você me ouviu, enfiando-se por entre meus braços abertos que, no fundo, procuravam a matéria de que você era feito e que eu tinha perdido. E também eu me ouvi, ouvi, como se não fosse minha, minha própria voz prometendo, mesmo já sabendo que aquilo era algo que eu jamais poderia ter cumprido.

     A culpa é de nós dois, na verdade. Mas, de qualquer forma, essa bolha não existe mais pra mim. Rompeu-se faz tempo.

      Sim, você sempre pretendeu um amor pleno, você dizia. Um amor em que nada entrasse no meio, nada atrapalhasse. Dia e noite, éramos só eu e você, e o mundo que se fodesse. Percebendo, mas sem querer não percebendo, que tudo isso era uma fuga que você tinha criado, deixei assim estar. E, ao mesmo tempo, entendia. Tentei, então, mantê-lo nesse mundo de todas as maneiras, enquanto via lentamente toda a estrutura que você tinha criado com suas ilusões desmoronar. Fui cruel? Deveria tê-lo ajudado a enfrentar tudo isso? Mas me parecia que, a cada passo que tomava nessa direção, mais fazia-o mergulhar em toda essa ilusão, e tornava-me cúmplice de uma fuga que, com o tempo, percebi que não era só sua. Sabia o que era necessário, mas tive medo.

     Fiquei encantado com você porque achei que você ainda era o mesmo de antes, do seu passado que você me contou brevemente uma vez, que lutava pelo que acreditava e via uma possibilidade fora de tudo isso. O tempo todo, enquanto estava com você, esperava para ver o momento em que esses sentimentos desabrochariam e, juntos, pudéssemos plantar um jardim no asfalto.

     Mas você não entendia.

     E então finalmente percebi que na verdade ao redor de você você criava uma parafernália de objetos orbitantes, um verdadeiro arsenal para que eu não te alcançasse. Mas esse era você, pois somos também a construção. Agora percebo isso. Parecia que você era o que você tinha, toda a mercadoria que você podia oferecer, menos para os outros do que para si mesmo, em troca do que tinha perdido.

     Eu sei, eu sei. Mas é que não dá pra simplesmente deitar em sua cama e fechar os olhos esperando com ingenuidade que você vai adormecer momentaneamente. Precisei de remédios: lexotam, diazepan e o caralho-a-quatro. Algo tinha se perdido para a minha geração. Eu fui como você, e queria que você fosse como eu, ao mesmo tempo desejando que eu fosse como você. Louco isso, né? Mas era assim que eu me sentia. Um pouco de você em mim, e um pouco de mim em você. Mas talvez isso tudo seja muito egoísmo de minha parte e que minha motivação tenha sido tê-lo para, sob mim, calá-lo. Pois vi em você um pedaço de mim que eu tinha perdido, pedaço que sabia que, inevitavelmente, se perderia em você também. Acho que quis segurá-lo antes da queda.

     E, ao mesmo tempo, inconscientemente, eu admito, era tudo muito calculado por você para que eu não percebesse que no escuro vazio por trás de todo esse equipamento havia dois olhos insones e constantemente cheios de lágrimas que, não importa o quanto você tente secá-las, nunca param de cair. Tô errado?

      Tá, eu respondi. Mas não tava. E eu ainda o escuto gritando em meus ouvidos tudo o que você tinha dito, e procuro pôr um ponto final nessa narrativa, mas você aparece sempre antes de cada desfecho, antes de cada peripécia, para me mostrar que, na minha vida, desde que você se foi, não há peripécias.

     Não me procure mais, por favor. Tudo isso é uma construção, e não sei mais quem sou. Mas é preciso lidar, é preciso lidar.

      Você repetiu isso para si mesmo várias vezes.

     Se você não me escuta e me cala, se em você você nega essa voz que não é só minha, mas que também é sua, eu não me calarei.

      Na verdade, você nunca se calava, e o resultado era desastroso. Era tudo fora do lugar, distorcido, inadequado. Você não sabia se expressar. Era assim como um conteúdo sem forma. Sempre senti que em você havia um turbilhão que seu corpo frágil de menino não ia aguentar por muito tempo e a qualquer momento se romperia, sua pele toda se rasgaria, você explodiria e seus ossos e tripas se espalhariam pelo chão, pedaços do que antes tinha sido um todo pretensamente uno.

     Adeus. Pode ser que nessa busca eu sucumba. Pode ser que, quando achar que esteja encontrando meu caminho, me veja em mais uma armadilha que eu mesmo tenha criado. Pode ser até que eu, como você, seja uma geração que buscou e desistiu, mas preciso tentar encontrar. E pode ser que nosso diferencial seja que você tinha caído num mundo em que os ideais estavam ali, e o caminho supostamente traçado... Quanto a mim, não há nada, eu cheguei e as coisas já estavam assim, sem caminhos além de trilhas estreitas que devo abrir no meio dessa mata fechada e que podem me levar a um abismo. Mas, nem que seja sozinho, é preciso tentar.

      A gente sempre está só, quis dizer. Mas com o bater da porta percebi que você já sabia. Caminhei então até o quarto, deitei-me na cama e, sem ingenuidade, sem idealismo, tomei todo o meu arsenal. E durmo.

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