terça-feira, 10 de julho de 2012

O assalto

          Agora eu só sinto essa sensação de impotência que me faz querer rasgar em pedaços aqueles filhos de uma puta que me assaltaram mais uma vez. Na primeira vez em que fui assaltado, eu chorei, me senti nu, um lixo, uma sensação terrível de fragilidade e exposição que me fazia querer retirar-me no meu próprio casulo e esperar que tudo passasse para que eu finalmente pudesse sair de novo. Só que não passava, estava aqui dentro. É preciso lidar: o mundo, eu sempre penso, é um lugar terrível. E mesmo sabendo que há desigualdade, que o mundo é injusto também com os meninos que me assaltaram, agora eu só sinto ódio. E se estivesse em meu poder, botaria fogo onde eles vieram. Todo o escrúpulo, toda a consciência, toda a percepção de que, no fundo, não é culpa deles, se vai quando somos nós mesmos que estamos em jogo.
            E isso é horrível. Penso neles, nascendo em uma favela, passando a infância cercados por caminhos que já estavam abertos pra eles e mais fáceis de serem trilhados do que em comparação com aqueles que eles viam, de relance, passando velozes no canto de seus olhos, fugidios e intangíveis, os caminhos dos meninos que passam dentro de carros nas ruas, caminhavam pela Paulista fumando um cigarro e com um tênis grande e luminoso que marcava presença, eles achavam. Só que não podiam. E mesmo na escola, que supostamente deveria lhes mostrar o caminho, a eles era apresentado apenas um beco sem saída.
            “Vocês nunca vão ser alguém na vida!”, já esguelava a velha professora filha da puta que mais de uma vez os tinha mandado para Diretoria, Maicou e Clélio.
            Maicou e Clélio – esses poderiam ser o nome deles. Maicou dói, não? É tão feio, é tão... Me causa certo incômodo. Então esse é o caminho. Sair de mim mesmo, sair desse egoísmo que flui a cada pulsação de meu sangue por todo o corpo e me faz desejar neste exato momento que Maicou, o preto tingido de loiro que me segurou pelos braços, e Clélio, o outro macaco de moleton de mano que supostamente tinha uma arma e arrancou de minhas costas minha mochila com tudo de que eu precisava dizendo “filho-da-puta-cala-a-boca-senão-te-estóro!” – Maicou e Clélio, mortos. Mas não.
            Primeiramente, sem clichês. Eu estava bem até então. Maicou e Clélio – nascidos na favela, ao perceberem que para eles não havia caminho para o que o sistema lhes prometia, resolveram consegui-lo por suas próprias mãos. Eram pequenos furtos no começo: entre a multidão no centro ou dentro de algum ônibus, corres que faziam pra outros brothers. “Brothers” – será que eles usam isso? Tenho amigos que usam isso, eu às vezes também, mas não os vejo usando. Não, não os vejo usando. Espera, isso é uma falha. Isso quer dizer que eu de alguma forma me acho superior a eles, quero causar um distanciamento – eu falhei, aqui. OK, brothers.
            “Bora fazer um corre lá pro bróder nosso lá na Remo?”, Clélio disse a Maicou, que estava de boa fumando um com seus brothers num beco qualquer – com quantos anos? – doze, treze?
            “Porra, aquele filho da puta que demorou pra dar nossa grana?”, Maicou, o mais agressivo, exclamou.
            “Porra, mano, mas ele pagou no final! Ele vai dar uma arma pra gente agora, tá ligado?”
            E foi assim que eles pegaram numa arma pela primeira vez.
  Espera, está horrível, isso. Vou começar tudo de novo. Vai ser assim: nada do passado de Maicou e Clélio, quero só eles saindo da favela até o meu encontro. E por toda essa trajetória todas as justificativas terão de estar nas entrelinhas de modo que, durante o assalto, ninguém sinta ódio deles por estarem me assaltando. Será apenas uma consequência lógica. E agora eu me retiro.

***

            A favela era um mundo completamente à parte de toda a cidade. Era onde nasceram, onde viveram, onde aprenderam a segurar uma arma e a atirar, onde aos poucos conquistaram o direito de se inserir no mundo conseguindo o que queriam à força. E naquele dia eles resolveram, os dois, saírem em busca de alguém de quem pudesse roubar.
            Pois era fácil. Se tivessem uma arma, tudo viria naturalmente em suas mãos. E não havia peso na consciência – por que haveria? Há muito tempo tinham criado consciência de que não eram piores que ninguém e que, já que não lhes abriam portas, iriam arrombar-lhas com os próprios pés. Além disso, se algumas coisas tinham surgido facilmente para muitos playboyzinhos de merda que viam por aí, por que para eles tinha que ser diferente? Queriam a facilidade, também. Eram justos.
            Odiavam ter de pensar que o faziam pela sua família. Era uma questão de orgulho – sentiam que se o fizessem era o mesmo que provocar pena nos outros e uma justificativa de que não precisavam. Era tudo muito claro já. E sentiam-se ofendidos quando suas mães voltavam do trabalho na casa de uma patroa trazendo sobras do almoço ou do jantar –cansadas do caminho de ônibus ou que faziam a pé, mas com um sorriso de conforto ao saberem que ela e seus filhos teriam o que comer. Não, não. Eles queriam trazer o que comer, eles, que não podiam dizer que roubavam e assaltavam para elas, e que para fazê-lo diziam que tinham arrumado um bom emprego e o caralho-a-quatro. Mas roubar, jamais! Deus não queria isso, Jesus castigaria, a gente tem que saber que alguns nascem ricos e outros pobres e que as coisas são assim, ouviam suas mães dizerem.
            Jesus, Deus? Porra, o único Jesus que conheciam era aquele que lhes dava a sorte de encontrarem alguém com uma mochila com notebook ou iPad. Davam uma grana do caralho, essas coisas.
            Toda noite saíam de carro e alternavam o ponto onde fariam o assalto. Também a hora. Tinha uma ladeira a alguns quarteirões de distância da favela que era mó esquema, e pelo menos uma vez por semana o motorista parava o carro pra que eles descessem a ladeira pra assaltar o primeiro mané que viesse – porque lá pela onze da noite não tinha ninguém lá. Até tinha um segurança da rua numa cabininha, mas o cara se cagava todo com eles. Nem arma tinha.
            É, tinha um motorista. Na real, eles trabalhavam prum cara, que dava pra eles tipo uma comissão dependendo do que eles roubavam no dia, tá ligado? O cara curtia.
            “Cês são os melhores, moleques!”, ouviam o chefe dizer, os dentes de ouro brilhando entre a fumaça da maconha.
            E os dois se enchiam de orgulho, porque eram bons em alguma coisa. E eram mesmo. Maicou era sempre o mais agressivo, o que segurava quando era preciso, mas Clélio sempre carregava a arma porque atirava melhor e era mais controlado. Uma vez Maicou quebrou os dentes de um maluco aí que tava fazendo cu doce e tinha carro vindo. O cara veio com papinho de que era filho do delegado da puta-que-o-pariu e que eles estavam fodidos se eles o roubasse.
            “Tá querendo a boca cheia de formiga, maluco?”
            Maicou puxou o cara prum canto embaixo do viaduto e Clélio meteu três balas pelo cu dele. Quando contaram pro chefe levaram bronca, mas foda-se. Tem gente que pede pra morrer, mano. Mas nem deu nada depois, foi suave.
            Naquele dia desceram a ladeira e encontraram um mané. Era um moleque de óculos que devia estar voltando da faculdade, com cara de filhinho de papai que teve tudo na mão pra estar com a mochilinha com os livros e o mp3 no ouvido. Tem neguinho que assim que vê já levanta a mão porque sabe que vai ser assaltado. Foi papo.
            “Filho-da-puta cala a boca senão te estóro!”, Clélio gritou.
            E Maicou já segurava o cara pelo braço e arrancava a mochila das costas dele. De resto era só vazar dali e falar pro maluco seguir outro caminho e calar a boca senão iam meter bala na cabeça dele...
            Só que o mané que roubavam era o mesmo narrador deste conto.
            Maicou e Clélio subiam a ladeira achando que o mané tinha ficado pra trás, então não viram que ele correu até o segurança que se cagava todo na cabininha e pegou a arma dele. É, o cara tinha uma arma.
            Eu dei primeiro um tiro nas costas do Clélio, que caiu, e então logo depois um na perna do Maicou. Os dois não esperavam. Não deixei pegarem a arma, cheguei e chutei pra longe. Então meti primeiro uma bala na cabeça do Maicou: deixei o cabelo dele vermelho, ficou bem melhor. Foi gostoso ouvir ele me xingar de filho-da-puta enquanto eu já apontava a arma pro focinho do desgraçado. O outro nem conseguia se mexer, então foi fácil brincar com ele: um tiro no pau, outro na outra perna e, enquanto ele chorava e gritava, esperei um pouco até mandar um na cabeça.
            Ouvi o barulho do carro que os tinha trazido de longe, então saí correndo, com minha mochila de volta.
         
            Admito que falhei, mas não pude evitar. E apesar de me sentir melhor, agora me sinto mais nu do que antes. E vocês?
         

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