quarta-feira, 18 de julho de 2012

Meu pai morreu


     “É sua mãe no telefone, Marcos”, disse a telefonista na empresa.
     “Minha mãe?”, perguntou, surpreso. Ela quase nunca ligava.
     “Ela disse que é importante”, acrescentou a... mulher. Qual era o nome dela mesmo? Sempre esquecia.
     “Pode pôr na linha, por favor.”
     “Marcos?”, ele imediatamente ouviu a voz da sua mãe do outro lado. Mas estava diferente, mais frágil.
    “Mãe?”
     “Seu pai morreu”, ela disse simplesmente.
     Houve um soluço? Sim, houve, e agora ela chorava do outro lado da linha. Mas... Seu pai tinha morrido. Se-u pa-i ti-nha mo-rri-do. Seu-pai-tinha-morrido! Levantou-se, sentiu-se tonto, sentou-se. Seu peito doía.
     “Marcos, você tá aí?”
     “Sim, mãe”, respondeu, sua voz tremendo, podia sentir. E não sabia o que dizer.
     “Eu sei que vocês... Que vocês não se davam bem e que... Mas você vem, né?”
     “Sim.”
     Precisava dizer algo mais.
     “Com certeza, mãe. Claro que eu vou.”
     “O velório vai ser amanhã às três da tarde, filho.”
     A voz dela estava embargada de choro, quando disse “filho”. Quis dizer algo mais. “Eu te amo.” Ou: “Não chora, não chora, mãe”.
     “Eu vou estar aí amanhã bem cedo.”
     Mas ela já tinha desligado.
     O que havia para sentir, exatamente? Seu escritório alaranjado pela luz do fim de tarde que entrava pela parede de vidro atrás de si, aquela luz que ele tanto gostava e trazia a sensação de o dia estar acabando, estar no fim. No fim... E o que era aquele sentimento no peito que doía, como se algo apertasse o seu coração com mãos de ferro, e torcesse, espremesse, como se espreme uma laranja para que algum suco saia? Estava seca? Poderia alguma lágrima ter escorrido? Mas não conseguia – não conseguia. E ficou sentado, imóvel, sentindo a luz se extinguir lentamente e tudo se tornar indistinto, lentamente as cores e as formas se esvanecendo conforme a escuridão avançava dos cantos, frestas e fendas – e fendas – de seu escritório para que ele então, finalmente, só então – finalmente – chorasse.

     Amanhã queria levantar cedo, bem cedo, amanhã. Isto é, se conseguisse dormir. Mas tinha que sair cedo, de qualquer forma – demoraria umas três horas para chegar à sua cidade, sem trânsito. Assim que chegasse em casa, já ia deixar suas malas arrumadas. Nem ia tomar café quando levantasse. Queria passar o máximo de tempo possível com seu pai – que tinha morrido. Seu pai que tinha morrido. Fechou os olhos agora, no sinal que estava fechado, vermelho – podia, tinha acabado de fechar –, e sentiu como se fosse chorar, iria chorar agora, tinha certeza – seu pai tinha morrido –, mas não chorou.
     Em vez disso, lembrou-se sem querer de quando tinha conseguido sua carteira de motorista e saiu para dirigir, com seu pai ao seu lado – seu pai, que estava vivo então. E de como ele vigiava até mesmo o modo como ele passava a marcha. Cada detalhe. Até mesmo isso. E aquele seu olhar de reprovação. Sempre, o olhar de reprovação. O último olhar que recebeu dele, antes de partir. E então veio à sua mente a imagem de seu pai olhando-o com reprovação – mas seu pai que já tinha morrido, olhando-o com reprovação do caixão.
     A buzina do carro atrás do seu o despertou, o sinal já estava verde, ele não tinha percebido.
     Sim, aquele olhar de reprovação. Aquele olhar que dizia que agora, meu filho, isso é tudo o que você vai ter de mim – já é tarde demais, tarde demais. Ele então apertou com força o volante entre as mãos, e passou a marcha do jeito que ele sabia que seu pai não gostava, e pegou no câmbio com gosto.
     E mais uma vez lembrou-se daquela vez na piscina, e de como seu pai o tinha forçado a desligar o botão do registro (que fazia com que o jato saísse na água da piscina), depois que tinha saído da água, molhado, junto com seus primos. E de como todo mundo, os seus primos, olhava para você com pena, porque seu pai, embora você dissesse que estivesse dando choque – “Tá dando choque, pai!” –, forçava-o a desligar. E você no chão, tentando apertar o botão, e ele no alto, imenso, ameaçador, os olhos injetados de algo que você não sabia o que era então, forçando-o a ser o que você não era e queria que você fosse. Assim como com sua mãe.
     Minha mãe, Marcos pensou, lembrando-se das vezes em que o macho, como um parasita, drenava toda a força dela, para que se fizesse mais macho. De como sua mãe, como uma flor indefesa, esperava para que ele ali estivesse e para que ele a aguasse e ela pudesse existir. Pois, para ela, ele tinha que ser o único jardineiro – e nós todos, flores. Nós, todos flores.
     “Me dê água, meu bem.”
     “Me dê água, pai.”
     “Mas um filho não pode ser uma flor”, diria meu pai, quando fosse a minha vez.
     Pois minha mãe – eu te amo, mãe – foi a única que me entendeu, e mais tarde entendeu também toda a loucura desse sistema de irrigação que foi criado na minha família e que a fazia ser uma frágil flor quando poderia ser, também ela, uma jardineira – ou o que quer que quisesse –, e seu filho, uma flor – ou, também ele, o que quer que quisesse. Mas depois da esquina do entendimento – finalmente estou chegando em casa, agora – repousa a autossobrevivência. E, embora ela já soubesse que não precisava ser uma flor, já era tarde para abandonar o seu canteiro, pensou Marcos, entrando agora na garagem do prédio.
     Pedir, insistir. Alguém dá, alguém recebe. É sempre assim? E então o que ele falaria pro Gui, agora? Que seu pai tinha morrido? Sim, ele tinha que dizer isso. Sim, sim, tremendo, sozinho, como se até mesmo aquele ventinho gostoso que sempre vinha da janela aberta da sala e que eles tanto gostavam fosse demais, como se com aquele ventinho a sensação piorasse – era tristeza, solidão, abandono? –, como se só com aquilo ele se sentisse como se não quisesse sentir mais nada, a não ser algo – ou alguém? – que só o Gui poderia trazer agora, ele tinha que dizer: “Meu pai morreu”.

     “Onde você tava?”, perguntou Gui, assim que ele entrou em casa. “Fiquei preocupado, já são quase nove.”
     Será que ele já sabia?
     “Quase nove? Acho que perdi a noção das horas no trabalho, desculpa”, disse, fingindo um sorriso.
     “Dia puxado?”, perguntou Gui, aproximando-se.
     Ajudou-o a tirar a gravata, que ainda apertava o seu pescoço. E sorriu, o Gui.
     “Sim.”
     “Meu pai morreu”, quase disse, mas ficou em silêncio.
     “Ai, o meu foi horrível!”, exclamou Gui de repente, abraçando-o e quase chorando.
     “O que aconteceu?”, perguntou Marcos, acariciando a cabeça dele e sorrindo, o mesmo sorriso.
     “O mesmo de sempre, no trabalho. Ai, eu não aguento mais!”, chorou Gui, mas, ao olhá-lo, acrescentou: “Deixa pra lá, amor. E aí, já comeu?”.
     Sim, esses eram eles. Gui pedia, ele dava. Mas Gui pedia por hábito, e ele também dava por hábito. Todo relacionamento, Marcos pensava, todo relacionamento, depois de tanto tempo, cria certos hábitos que somente o conhecimento recíproco cancela quando necessário. Pois essa é a dádiva: hábitos e conhecimento recíproco, aqueles para a sobrevivência, este para a salvação. Suspirou aliviado.
     “Tô sem fome”, disse. “Só quero tomar um banho agora.”
     “Quer companhia?”, perguntou Gui, com aquele sorrisinho que conhecia bem e que tanto gostava em outras ocasiões.
     Mas agora...
     “É que eu tô muito cansado.”
     E por que ele não dizia nada? Tinha medo? Não queria? Não, não era isso. Só não sabia como. Como dizer que seu pai tinha morrido, como dizer que era ele, agora, quem precisava receber? Pois não tinha mais o que dar. Não tinha, não agora. Além da dor, era seu pai quem tinha morrido.
     Quando saiu do chuveiro, encontrou Gui sentado na cama.
     “Tá tudo bem mesmo?”, perguntou ele.
     Ele tinha percebido.
     “Sim, por quê?”, disse em vão, enxugando-se distraidamente, e torcendo para que seu pênis exposto, balançando, distraísse de alguma forma a atenção de Gui.
     Mas Gui continuou:
     “Você sempre chega com fome, e hoje não comeu. Você nunca rejeita um banho comigo, também”, ele disse, sério. “E você não me beijou quando chegou”, acrescentou, baixando os olhos.
     “É verdade.”
     Não conseguia dizer mais nada. Mas acrescentou (precisava acrescentar algo, era o Gui):
     “Vem cá, vem dormir comigo. Amanhã eu vou estar melhor.”
     Os dois se deitaram juntos. Gui virou-se de costas para ele, que agora devia abraçá-lo, era o hábito. Mas ele não abraçou, e também se virou de costas. Não queria abraçar. Ainda de costas, Gui percebeu, puxou-o pelas mãos para que fosse abraçado, mas ele ainda continuou imóvel. Um ventinho vinha da janela do quarto, e ele tremia, ele se esvanecia, e Gui não conseguiu mais tocar as suas mãos para ser abraçado.
     A cama rangeu, Gui se virou, e ele sentiu as mãos dele em torno de sua barriga.
     “O que foi, Marcos?”
     Mas ele não respondeu – não ainda. O ventinho vinha, mas Gui apertava-o com as mãos – suadas, preocupadas, as mãos do Gui – e o protegia. Sentia todo o corpo dele quente em suas costas.
     Estava seguro.
     “Meu pai morreu.”
     Ouviu Gui se surpreender e, em vez de falar, abraçá-lo em silêncio, apenas. Não falou nada, apenas o abraçou. Suas mãos de delicadas tinham se tornado másculas em torno de si, envolvendo-o como pétalas envolvem uma flor. E então, de repente, Marcos segurou entre os dedos o pênis palpitante de Guilherme e o colocou dentro de si, fazendo-o deslizar por entre seus pelos mal aparados, pela primeira vez.

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