quinta-feira, 19 de julho de 2012

Eu me apaixonei por um menino morto


Inspirado pela música de mesmo título,
"I fell in love with a dead boy",
de Antony and the Johnsons.


     “A morte é o acontecimento mais extraordinário da vida”, pensava Enoque. Pois quem não gostaria de não ser? É o estágio mais completo da existência. Pois ele sabia que a única graça de estarmos vivos é sabermos que vamos morrer. E ansiava por isso, de modo que todo dia vivia na iminência do Grande Acontecimento.
     “A morte é a coisa mais bela pra se viver”, costumava dizer, mas ninguém entendia.
     Sua mãe retrucava dizendo que ele devia parar de pensar em besteira. Afinal, ele ainda era um mocinho e tinha uma longa vida pela frente. Devia sair mais com o irmão, fazer amigos, paquerar meninas. 
     Mas Enoque não precisava de nada disso. Não ousava revelar a ninguém, mas já tinha uma amiga e amante secreta. Ele a sentia roçar diariamente por sua pele, seu tato cálido e seu hálito frio lhe davam arrepios de volúpia, ao passar correndo em frente a um carro ou ônibus, o mais próximo possível – e inexplicavelmente sempre conseguir se safar, sentindo o vento do carro passar atrás de si. Ou ao ficar deitado sobre o trilho do trem esperando-o se aproximar. Não se levantava, não se levantaria se ele chegasse. Mas sempre vinha alguém que o fazia sair dali, ou ele de repente se lembrava que tinha algo muito urgente a ser resolvido antes de sua morte, que não podia ser deixado para trás de jeito nenhum, embora logo em seguida não conseguisse lembrar ao certo o que era. E havia os acidentes também: sabia que podia a qualquer momento sofrer um ataque cardíaco, pois já tinha ouvido falar de garotos da sua idade que tinham passado por isso – e então se entupia de batatas fritas e lanches; podia morrer num assalto – então toda a noite pulava a janela de seu quarto e saía pra caminhar na madrugada. E até mesmo um piano podia cair de repente do alto de um prédio em notas trágicas sobre sua cabeça.
     Às vezes, sem perceber, deslizava seus dedos pela virilha e brincava com seus pelos púberes como se fosse ela quem o roçasse sem nunca tocá-lo plenamente. Ansiava por seu cortejo, deitando-se sobre o piso frio do seu quarto banhado pela luz transparente da lua que penetrava pela janela. Nesses momentos, sentia-se mais próximo que nunca dela.
     Tinha alguns hábitos incomuns, é verdade. Gostava, por exemplo, de capturar sapos, deixá-los dentro de um pote até que morressem e, depois, dissecá-los para tentar então compor um novo ordenamento dos órgãos para criar outro tipo de ser. E sentia prazer em chorar pela morte do sapo enquanto tentava restaurar-lhe uma nova vida no lugar da antiga que ele mesmo tinha tirado. Além disso, gostava de flores. Quando sua mãe jogava fora as que tinham morrido nos vasos que ela deixava sobre os móveis da casa, Enoque ia sorrateiramente até o lixo, antes que o lixeiro passasse, para resgatá-las para decorar seu quarto. Pois era um menino sensível, vestindo-se de preto e mantendo seus longos cabelos oleosos, tão loiros que quase sem cor, cobrindo-lhe o rosto pálido, de modo que a sua aparência refletisse o seu estado interior. Sim, estava morto por dentro.
     Foi então que um dia, finalmente, em uma de suas andanças pelas ruas de sua cidade de madrugada, Enoque encontrou a Morte pessoalmente.
     Tinha dias em que, enquanto caminhava, ele enxergava ao longe a luz dentro do velório acesa. Corria até lá e olhava para dentro: se estivesse cheio, entrava, pois assim passaria despercebido. Gostava muito de estar ali. Sentia-se muito à vontade para chorar junto aos outros, sem causar nenhum espanto a ninguém por seu excesso de lágrimas. E pensava sempre ansioso quando seria a sua vez. Imaginava a si mesmo morrendo, toda a sua família, pais e irmão, avós, tias, primos, todos chorando pela sua morte enquanto ele ali estaria deitado no caixão vivenciando o seu tão esperado momento. E então chorava mais ainda.
     Mas quem está ali agora? Aproximou-se lentamente, aos poucos parando, enxugando uma lágrima aqui, outra ali, até que, quando chegou bem perto, viu.
     Ela devia ter a sua idade. Seus cabelos pretos e compridos caindo ao redor do rosto já frio e pálido, enrijecido, mas seus lábios ainda muito vermelhos, delicados, fechados naquela superioridade póstuma de quem não tinha mais o que viver e nada podia esperar a não ser o fim. Seu estado estava em harmonia com sua aparência: era tão bela, as mãos finas gentilmente dobradas em paz, indiferente às lágrimas ao seu redor, o estágio mais completo da existência, flutuando sobre as flores brancas que cobriam todo o contorno de seu corpo.
     Enoque chegou mais perto, sem se importar com as pessoas ao seu redor. Nunca tinha visto algo tão lindo. Era como se fosse a própria Morte, ali, deitada, exatamente como ele tinha imaginado em seus devaneios mórbidos.
     Tocou gentilmente as suas mãos. Seu toque frio o fez estremecer.
     “Qual é o seu nome?”
     Mas ela não respondeu.
     “Vocês eram amigos?”, ouviu de repente uma voz feminina embargada de choro ao seu lado. “Desculpa, é que ele tinha muitos amigos e–
     Sua mão se afastou. Ele recuou sem responder.
     “É um menino?”, exclamou consigo mesmo, com aquele tom muito peculiar de surpresa que fazemos quando encontramos por acaso algum conhecido que não víamos há anos. Há tanto tempo que parece ser outra pessoa – mudou o corte do cabelo? Sim, gostou? Prefiro você como antes, mas o que se pode fazer... Já está cortado – diria alguém mais sincero. Mas Enoque acrescentou rápido para si mesmo: “Mas é um menino morto. Tá morto”.
     Quando chegasse em casa, pensou, contaria à sua família tudo sobre ele, com os olhos cheios de lágrimas. E com um sorriso gentil cheio de recordações de toda uma vida, diria: “Queria que vocês tivessem conhecido ele”.
     Pois já se conheciam há muito tempo, é claro. Desde sempre. É verdade, passaram algum tempo afastados, ele tinha se mudado pra longe em algum momento de sua vida. Mas então tinha voltado. No dia do reencontro, foram ao cemitério juntos e de mãos dadas contemplaram a luz da lua sobre os túmulos agora cor de pérola. E brancos como a cera de uma vela tocaram um ao outro com sua chama.
     Andaram, também, por toda a cidade e descobriram coisas juntos sobre si mesmos que sozinhos jamais saberiam. Aprenderam a lidar com os defeitos dos outros e, acima de tudo, de si mesmos: ele não gostava de dissecar sapos, nem de chorar fechado em seu quarto, nem de flores murchas. Toda vida, ele dizia, devia ser prezada.
     “Olhe pra mim”, dizia, “Posso até estar morto, mas quero continuar vivo.”
     Os anos então se passaram, eles cresceram e formaram uma família. Tiveram um jardim em que criaram sapos e não deixaram nenhuma flor morrer. E embora toda noite, antes de dormirem juntos, conforme envelheciam, pensassem empolgados que poderiam acordar mortos (pois de que outra maneira poderiam morrer?), ao acordarem cantavam e batiam suas imensas asas para voarem juntos ao longo do dia.
     Toda uma vida juntos. Toda uma vida juntos e então ele se foi. Chorou por semanas, meses, anos, sabendo que jamais amaria novamente. E agora mora em um solitário casebre à beira de um penhasco, sobre um mar de ondas que foram formadas por suas próprias lágrimas de anos, batendo tristes e silenciosas contra os rochedos. E ninguém da cidade se aproxima, pois lá mora um velho que tinha se casado com a própria Morte e agora, diziam, estava condenado a jamais morrer. Mas, se ousassem se aproximar, entretanto, ouviriam a mais bela e mórbida história de amor entre dois homens, só que um deles, morto. Não...
     “Está na hora”, ele de repente ouviu a voz do padre soar alta no velório.
     Não, não! Não conseguia controlar suas lágrimas, não podia suportar vê-lo ser levado assim pra longe, pra sob a terra. Não queria vê-lo morto!
     Enoque correu para fora do velório, correu pelas ruas chorando sem parar, correu até chegar em casa. Pulou a janela do seu quarto e deitou-se em sua cama, condenado a chorar por toda a eternidade por uma vida que ele tinha perdido sem ter.
     Mas, de repente, sentiu um toque quente nas mãos. Um calor sobre a pele. Lentamente abriu os olhos e demorou a se acostumar com a claridade do sol que via entrar pela janela do seu quarto. Amanhecia.

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